domingo, 26 de agosto de 2012

PEREGRINANDO PELA TERRA SANTA

Já circundei o pré-histórico monumento de Stonehenge, caminhei por entre as pirâmides de Gizé, visitei a antiga cidade portuária de Efésios, adentrei no Parthenon e no Coliseu, admirei os detalhes dos barcos vickings em Oslo e deixei-me levar pela imaginação nas ruas de Pompéia. Em todas essas ocasiões e em diversas outras de uma extensa lista de contatos com vestígios de antigas civilizações, nunca fui tocado como em minha visita a Jerusalém, onde não precisei me esforçar para imaginar como seus antigos habitantes viviam, já que tudo ali, pelo menos na cidade antiga, parece quase não ter sofrido alterações, no mínimo, desde a época dos cruzados.

Não é uma cidade morta, um museu a céu aberto, com edifícios estonteantes que desafiam a imaginação a compreender como ou por qual razão foram colocados em pé, ou ainda porque foram abandonados. A vida por ali ainda pulsa não apenas em suas construções seculares, testemunhas da fé da humanidade, mas, sobretudo, nas pessoas que por ali habitam, que por ali transitam em busca de Deus ou de si mesmas.
Visitar Jerusalém é romper a fronteira do tempo e dos costumes, é misturar passado e presente, ocidente e oriente, espiritual e mundano.

Vasculhando minhas memórias para escrever este texto, sou bombardeado de informações, de impressões e até mesmo odores marcantes. Fecho os olhos e me vejo vagando por aquelas ruelas estreitas, em meio aos souks (emaranhado de ruas comerciais), observando o vai-vem de pessoas e escutando seu vozerio indecifrável que parece querer se impregnar nas paredes, como os pedidos deixados por entre as frestas das rochas que compõem o Muro das Lamentações.

Ao atravessar os limites do Portão de Damasco, um dos oito acessos à cidade antiga de Jerusalém e construído em 1542 por ordem de Solimão, o Magnífico, sou transportado para um mundo que parece existir somente na imaginação de algum cineasta de Hollywood, ou para algum dos contos das mil e uma noites, devidamente repaginado, com elementos do quotidiano atual, como celulares e brinquedos feitos na China, que destoariam na paisagem, caso não se perdessem no turbilhão de sensações que os sentidos humanos não são capazes de captar.

Confesso que meu primeiro impacto, após rapidamente observar a imensa construção otomana, não foi dos mais positivos. Não que a construção em si não me tenha agradado. Muito pelo contrário. Possui traços mouriscos muito característicos e uma imponente porta de madeira, hoje constantemente escancarada, uma vez que o perigo de invasão já não existe mais (quando muito, a invasão é de turistas e peregrinos de todo o mundo). Foi o que vi logo depois que me causou certo desconforto.

Guiado por uma senhora francesa que havia conhecido no taxi coletivo (vulgo van) que nos trouxe do aeroporto Ben Gurion até Jerusalém, quanto mais adentrava a cidade, na pressa de chegar no hotel e me livrar do peso das malas (apesar de ter aprendido a viajar com o mínimo indispensável, no sobre e desce de ladeiras, esse indispensável também pesa), mais me questionava sobre ter viajado tanto para me enfiar num local que, num primeiro momento, parecia-me um misto dos tradicionais pontos de comércio popular de São Paulo e do Rio de Janeiro, a 25 de Março e o Saara, ou seja, nada que justificasse uma viagem tão longa.

Cheguei a escrever nas minhas anotações que aquilo que via só podia ser reflexo da expulsão dos vendilhões do templo que, conseqüentemente, haviam se espalhado pela cidade, ou pelo menos por aquele canto! Eram lojas de todos os tipos, misturadas sem o mínimo nexo, de joalherias a açougues, passando pelo comércio de roupas, de especiarias, de todo tipo de alimentos e de lembrancinhas para turistas, das mais baratas e legitimamente falsas, às mais caras e genuinamente (?) verdadeiras. Também havia os vendedores ambulantes, com produtos espalhados pelo chão e que, em certos momentos, atrapalhavam a passagem. Tudo unido e isolado, como numa colcha de retalhos, de tons variados e, em alguns casos, de gosto duvidoso.

Uma análise mais atenta, porém, me fez mudar de idéia e apreciar cada vez mais aquele universo que, embora não muito grande (a cidade antiga tem não mais que 1 Km²), possui uma diversidade étnica e cultural dificilmente encontrada em outras localidades. Aliás, observar aquele vai-e-vem de pessoas de variados biótipos, já é uma viagem. São muçulmanos, judeus e católicos de todos os tipos e todas as partes do mundo, que vivem ou se dirigem a Jerusalém para visitar alguns dos locais mais sagrados para as principais religiões do planeta.

Bem, o hotel onde eu me hospedei (Hashimi Hotel) estava localizado no bairro muçulmano, num palácio construído em 1740, a dois passos da Via Dolorosa e com um terraço com vista para a Cúpula da Rocha. Essa, pelo menos, é a descrição que encontrei no E-booking e, como eu não tinha muitas opções, já que outubro é um mês de altíssima temporada em Israel, por conta de festas judaicas de grande importância, bem como do clima, que é agradável para longas caminhadas, resolvi ficar por lá, na certeza de estar fazendo um grande negócio: prédio histórico, recém restaurado, de fácil acesso aos pontos que tinha programado para minha rápida visita à cidade e a um bom preço (US$ 100 por noite).

Claro que onde há fumaça há fogo e, se o hotel fosse tudo o que o site descreve, custaria tanto quanto o King David, hotel mais luxuoso da cidade, com apartamentos a partir de U$ 500 (confesso que até tentei ficar lá, ou no YMCM, igualmente famoso e do outro lado da rua, nas imediações da Porta de Jaffa, mas de um lado porque se encontram fora dos muros da cidade velha e de outro porque deixei para fazer a reserva muito tarde, encontrei-os lotados e acabei forçosamente abortando a idéia).

Quando cheguei na frente do hotel, depois de dar uma parada numa vendinha para me certificar onde ficava, já que minha guia francesa havia me deixado no início da rua, de onde ela seguiu seu caminho, olhei bem para a porta de ingresso e lembrei daquela música da Neuzinha Brizola: ... a cobertura era uma kitchenet e a festa era mitchura ...

Nem tudo era mentira ou exagero. O hotel realmente estava instalado num edifício com quase 300 anos, todo restaurado (segundo os padrões locais) e a pouca distância da Via Dolorosa, que eu decidi visitar logo após deixar minhas malas no hotel. O problema é que o quarto, para 4 pessoas (resolvi o problema alugando todas as vagas, trancando a porta a chave e levando-a comigo para onde quer que fosse!) era um tanto quanto espartano e sem nível de comparação com o King David, ou mesmo com as hospedarias para peregrinos, onde também tentei ficar e também encontrei igualmente lotadas. Não podia me queixar, porém, da limpeza e, quanto ao terraço, de fato tinha uma boa vista para a Cúpula da Rocha, mas como em outubro faz um certo friozinho (embora tenha tido sorte e pego dias de sol), o terraço estava fechado e pude usufruir da vista somente da porta de vidro para dentro. Depois, a rua do hotel não é das mais simpáticas para um ocidental, não pelo menos até cair de cabeça na cultura oriental, já que fica no coração de um souk.

Passado o susto com o quarto e o hotel em si, que depois passei a achar suficiente (embora não fosse um 5 estrelas), saí pelo souk, no que deveria ser um passeio de reconhecimento, de modo a planejar a visita do dia seguinte. Entretanto, após caminhar 2 minutos, já estava na Via Dolorosa e, levado pelos peregrinos, acabei fazendo boa parte das 12 estações, que compreendem algumas passagens da imolação de Jesus após ter sido condenado culpado pelo Sinédrio.

Ao seguir esses grupos, em particular um de japoneses, acabei entrando em locais que, somente no dia seguinte, fazendo rapidamente o mesmo trajeto, percebi serem propriedades privadas, abertas ao público somente mediante pagamento de ingresso (bastante justo, visto que em diversas situações encontram-se nos subterrâneos de casas habitadas). Como estava com os peregrinos, passei por componente do grupo (ninguém se deu conta que não sou japonês ou acharam que era guia!) e fiquei ali observando a demonstração de fé de seus elementos. Chegava a ser comovente vê-los ingressar nos locais por onde Jesus passou, cantar uma oração e seguir para a estação seguinte. Tudo muito rápido, mas muito intenso e extremamente verdadeiro.

Durante as várias reflexões que tive, cheguei a invejar esses verdadeiros peregrinos pela fé incondicional que demonstravam e que eu nem de longe sentia. Até tentava me emocionar como eles ao passar pelos locais onde Jesus sofreu até ser crucificado. Entretanto, meu lado racional, cartesiano, não me permitia esse tipo de emoção, até pelo menos seguir um fluxo de judeus, que vinham de todas as partes e, como passageiros do metrô em horário de pico, subiam apressados as colinas da cidade nova até passar pela Porta de Jaffa e se perderem nas vielas da cidade antiga.

Tinha atravessado a Porta de Jaffa, após concluir o circuito pela Via Dolorosa. Havia parado por lá para tomar um copo de suco de romã, vendido aos turistas e demais transeuntes pela módica quantia de 10 shekels (algo em torno de R$ 26!). É caro, eu seu, mas não pude resistir a esse sabor pitoresco, meio doce, meio com gosto de terra, que tantos paravam para provar. Foi aí que notei o fluxo incessante de judeus cidade adentro, numa pressa tão grande, que nem o Coelho Maluco da Alice no País das Maravilhas parece ter experimentado.

Curioso que sou, terminei meu copo de suco, que devem ter tingido meus dentes de um tom violeta, para disfarçadamente, um pouco como o Agente 86 e um pouco como Mister Bin, seguir aquela multidão que, se tivesse sido tirada de um filme de Indiana Jones, certamente estaria indo para algum sacrifício, ou ritual.

Independentemente da razão que os levava para o mesmo lugar, segui o fluxo que, meio sem tomar conhecimento, quase que inconscientemente, embora demonstrando uma alegria típica de dia de festa, e das boas, passou pelo bairros católico e armênio para chegar ao bairro judeu, até desembocar numa esplanada completamente iluminada, tendo ao fundo o Muro das Lamentações, encimado pela Cúpula da Rocha. Tudo isso emoldurado pelos últimos raios de sol, que deixavam o céu num tom de azul cinzento.

O Muro das Lamentações é o que sobrou do Grade Templo, que está para o judaísmo como a Basílica de São Pedro está para o catolicismo, ou Meca está para o islamismo. Foi construído após o retorno do cativeiro na Babilônia, em torno do ano 539 a.C., no mesmo local onde Salomão havia construído o primeiro Grande Templo, e destruído completamente no ano 70, pelos romanos.

É difícil descrever a emoção que senti ao me encontrar diante daquele que é o local mais sagrado para os judeus e que, segundo uma inscrição colocada em suas proximidades, é um lugar onde a divindade está sempre presente. O que sei é que, depois de passar pelo detector de metais – muito comum hoje em dia em locais de grande concentração de pessoas e ícones para um país – e me vi em meio a uma multidão de homens e mulheres que cantavam, dançavam e oravam numa bela festa, o Sucot (lê-se sukô) que comemora os 40 anos de peregrinação dos judeus pelo deserto até encontrarem a terra prometida, mal contive as lágrimas.

Fiquei por ali cerca de uma hora caminhando de um lado para o outro e, por vezes, simplesmente parava para observar a alegria daquela gente de todas as idades, dos mais liberais aos ortodoxos. Pude notar que homem e mulheres, pelo menos nas imediações do Muro, ocupavam seções separadas, sendo a masculina muito maior. Pensei em adentrar na seção masculina, chegar perto do muro, fazer uma oração e deixar um pedido nas suas frestas, mas um pouco pela multidão e um pouco por não ser judeu, achei que não tinha o direito de invadir a fé deles. Aliás, uma placa colocada em local bem visível, dirigida a turistas, recomendava que a aquele momento de festa, mas também de religiosidade, fosse resguardado das ações inoportunas e, de algum modo, desrespeitosas.

Já meio cansado, embora fosse apenas pouco mais de seis da tarde, segui novamente o fluxo de judeus, que então deixavam aquele local, para também seguir meu rumo ao hotel. Ocorre que, no meio do caminho, vendo-me novamente nas imediações da Via Dolorosa, resolvi buscar pela Basílica do Santo Sepulcro, um dos pontos mais sagrados para católicos de todos os tipos. Digo isso, pois as ordens religiosas cristãs que povoam a Terra Santa são inúmeras e incluem os católicos apostólicos romanos, mas também os ortodoxos, os armênios e os etíopes, além da ordem dos franciscanos, das carmelitas e de mais alguma que me tenha passado desapercebida.

Não a achei com facilidade, pois perder-se entre aquelas ruelas, que passam longe de qualquer plano urbanístico, é mais fácil que andar para frente e já acreditando que essa minha visita ficaria para as quatro da manhã do dia seguinte (queria chegar cedo para não ter que disputar espaço com os inúmeros turistas e peregrinos), acabei encontrando-a e, meio surpreso com sua linha arquitetônica, que não segue o padrão de uma igreja – normalmente construída em forma de cruz – adentrei em seu ambiente, muito amplo, com linhas características da época dos cruzados e evidente influência ortodoxa na iluminação, realizada por lamparinas de vidro colorido, suspensas por correntes de bronze.

A Basílica, na verdade, é um conglomerado de capelas de várias épocas. A porta principal, por exemplo, é do século XII. Já a pedra colocada sobre o local onde Cristo teria sido deitado ao ser retirado da cruz é de 1700. Não deu para ver tudo com calma, pois cheguei cerca de 30 minutos antes da igreja ser fechada. De qualquer modo, pude caminhar por cada um dos ambientes, parar, observar, mergulhar no silêncio, orar ... e comer uma rosquinha que havia comprado um pouco antes de entrar na igreja (nada de particular, mas tinha fome e queria provar a culinária da região, pelo preço módico de 10 shekels, valor que daria para ter comprado um pacote inteiro, mas que resolvi aceitar, pois os meninos que as vendiam pareciam estar precisando desse dinheiro mais do que eu).

Queria ter sentido dentro da Basílica do Santo Sepulcro a mesma emoção que senti diante do Muro das Lamentações. Afinal, tinha sido ali mesmo, dois mil anos antes, que Jesus tinha sido crucificado e sepultado. Entretanto, aquele lugar não me provocou nada, ou melhor, quase nada. Na verdade, senti profundo respeito por uma senhora que vi logo ao adentrar no recinto, ajoelhada diante da pedra colocada no local onde Jesus teria sido untado com óleos aromáticos antes de ser sepultado. Ela orava com profundo fervor, come se visse diante dela o corpo de Jesus, deitado sobre aquela pedra, que ela acariciava com ternura, lentamente, empunhando um lenço que acreditava estar benzendo, de maneira a levar consigo um pouco da paz que aquele lugar lhe trazia. Quem sabe qual força que movia sua fé, ou qual o provável problema que a afligia. Parecia uma das Três Marias ao pé da cruz.

Bem, após essa cena logo na entrada, eu adentrei à igreja e, embora pensasse que a fosse encontrar lotada, não vi viva alma. Nenhum barulho além dos meus passos, que ressoavam por aqueles corredores de pedra, levando-me quase que inconscientemente até uma capela construída sobre o Calvário, ou, em aramaico, Gólgota, local onde teria sido fincada a cruz que levou Jesus desse mundo. E eu fiquei lá por uns bons minutos, sentado no degrau da escadaria que levava à capela, olhando para o local sagrado, até ser chamado por um vigia, avisando que estava na hora de fechar o local.

Saí correndo, olhando rapidamente o local do Santo Sepulcro, na certeza de poder retornar ao local com mais calma no dia seguinte, o que jamais aconteceu, pois o destino acabou me levando para outro lugar. Saí e, antes de voltar para o hotel, fiquei sentado na praça, observando as portas do templo serem serradas por uma das ordens religiosas guardiãs do local. São bem democráticos: uma abre e outra fecha aquela porta baixinha, que faz a gente se encurvar para entrar, parecendo nos obrigar a uma reverência, mas que, na verdade, tem aquela altura para evitar que entrassem a cavalo, algo bastante provável na época dos cruzados.

Não me lembro que horas eram. Provavelmente pouco mais de seis da tarde. A noite, porém, já era profunda e, então, relutante, resolvi voltar para o hotel, onde recebi a ligação de uma amiga de Tel Aviv, que havia conhecido um ano antes e com a qual combinei de me encontrar no dia seguinte.

E o segundo dia na Terra Santa começou cedo e foi tão ou mais rico de informações que o primeiro. Começou com um típico café da manhã local, especialmente bem vindo, sobretudo depois de uma noite sem jantar (quem disse que arrumar um bom restaurante, à noite e dentro dos muros da velha Jerusalém é fácil?). Lembro-me de ter comido queijo, pão árabe (que eu adoro), manteiga e frutas locais. Pratos, copos e talheres eram de plástico e os guardanapos tão finos que furavam só de olhar para eles, mas a comida era saborosa.

Terminado o desjejum, atravessei novamente a Porta de Damasco e, costeando externamente os muros da cidade, subi o Monte das Oliveiras até o Convento do Paternoster, ou Pai Nosso, passando por diversos pontos de interesse histórico e religioso.

A temperatura estava bem agradável, embora o sol já se fizesse imponente. A paisagem fora dos muros distinguia-se de maneira gritante da Antiga Jerusalém, cheia de cores, odores e um vaivém de pessoas de todas as raças e religiões. O exterior, embora menos claustrofóbico, carecia de cores, que se limitavam ao azul do céu, o branco amarelento usado nas construções daquela região e uma ou outra pincelada de verde, aqui e ali, mas sem aquele vigor das florestas tropicais.

Pensei que a caminhada fosse ser breve, mas, ao contrário, devo ter levado pelo menos uma hora até o topo do Monte da Oliveiras e, como não poderia deixar de ser, até lá encontrei grupos de brasileiros, com seu gesto bem expansivo de ser. São incríveis esses turistas que, por acharem que ninguém está entendendo o que falam, podem gritar como se estivessem num mercado de peixe. E o engraçado é que, como pássaros, estão sempre em bando, quero dizer, grupo. Viajam com um guia, que tenta lhes manter em grupo e explicar um pouco da história do local, mas o que querem saber mesmo é de tirar fotos e de comprar aquele monte de quinquilharias que exibem para seus pares, ao retornarem para suas cidades de origem, não se esquecendo de dizer o quão pouco pagaram (como se porcaria não custasse pouco também aqui no Brasil).

Logo no começo da subida, encontra-se a Igreja das Nações, também chamada de Igreja da Agonia, por ter sido construída sobre o local onde, dizem, Jesus teria parado para orar pela humanidade, na noite da sua captura. Trata-se de uma construção em estilo bizantino, erguida em 1924, com recursos de diversos países (daí ela levar o nome de igreja das nações e ter em cada uma de suas 12 cúpulas representações dos brasões dos países que contribuíram para sua construção). A igreja é interessante (sobretudo suas cúpulas, de um azul que lembram o céu), mas o que chama mais a atenção no local são os troncos retorcidos das velhas oliveiras, algumas das quais com mais de 2 mil anos e, portanto, testemunhas da passagem de cristo pela terra. Caminhar por elas, somente com guia e como eu não tinha nem tempo e nem vontade de molhar a mão de ninguém, apenas fiquei por lá, do lado de fora da grade, tentando imaginar as ultimas cenas de Cristo naquele lugar.

Mas o lugar tem muitas coisas para ver e rapidamente saí do meu transe para seguir adiante, ladeira acima e, já no meio da subida, é impossível deixar de notar um imenso cemitério judeu, repleto de lápides, muitas sobrepostas umas sobre as outras e todas olhando para o vale de Josafá, no sopé do grande templo, onde a humanidade ressuscitará, segundo os ortodoxos, no dia do Juízo Final.

Mais uns minutos montanha acima e, finalmente, chego no Convento do Pai Nosso, que também não é dos mais antigos. A construção é de 1874 e foi realizada sobre uma antiga igreja bizantina, do 4° século, que, por sua vez, está localizada sobre uma gruta onde, dizem Jesus ensinou o Pai Nosso a seus seguidores.
As paredes do edifício, dirigido pela Ordem das Carmelitas, são revestidas por placas contendo a oração Pai Nosso em diversas línguas. A placa, formada por seis azulejos, contendo a oração em português do Brasil, não é das maiores e está nem na entrada do claustro, um jardim com uma imponente tamareira, ao lado de um pinheiro não menos imponente e um silêncio reconfortante, quebrado apenas pelo caminhar de um ou outro turista em meio aos pedregulhos que preenchem as alamedas do jardim. Nos subterrâneos, fica a gruta na qual Jesus provavelmente se reunia com seus discípulos. Embora tenha ficado lá por apenas alguns instantes, fecho os olhos e me lembro de cada detalhe.

Saí do Paternoster e fui para a Capela da Ascensão, que fica bem do outro lado da rua. O local fica onde Jesus teria sido avistado pela última vez após a ressurreição e no qual teria deixada a marca de seu pé num calçamento de mármore. De novo, o que mais comove é a fé das pessoas, que se ajoelham diante daquela marca, rezam e, antes de seguirem adiante em sua peregrinação, beijam-na como se estivessem beijando o próprio Cristo. Minha mente cartesiana, porém, novamente se recusa a acreditar que aquele buraco na pedra, no formato de um calcanhar e que provavelmente foi cunhado pela ação do tempo ou por alguém interessado em ganhar uns trocados (sim, paga-se para entrar!), à custa da fé do povo.

E, deixando essa capela, pequeno edifício com prováveis 2m de diâmetro, construído na forma de um batistério e localizado num terreno baldio, nos fundos de uma mesquita, eu continuo minha peregrinação, agora ladeira abaixo, em direção à Capela Dominus Flevit, de cuja existência eu fiquei sabendo com o auxílio do meu guia de bolso. Foi construída em 1955, no formato de uma lágrima, sobre as fundações (como quase tudo por lá) de uma antiga capela que, por sua vez, foi construída sobre uma pedra onde Jesus teria chorado pelo destino de Jerusalém. A igrejinha é bem simples, porém, possui uma das imagens mais deslumbrantes que já vi: sentado diante do altar, é possível contemplar um crucifixo e, ao fundo, uma janela através da qual se pode admirar a cidade velha e, mais especificamente a Cúpula da Rocha e o Muro das Lamentações. Três religiões em harmonia, unidades num único olhar.

A próxima parada aconteceu na Igreja Ortodoxa Santa Maria Madalena, mandada construir pelo Czar Alexandre III, em memória de sua mãe, Maria Alexandrovna. É interessante ver uma construção em estilo moscovita, com suas cúpulas douradas que podem ser avistadas desde muito longe, em meio do deserto. Interessantes também as pinturas sobre suas paredes internas, que contam algumas passagens da vida de Maria Madalena, mulher de fibra e com uma história riquíssima, embora seja conhecida apenas por ter levado sua juventude com uma liberdade que, nos dias de hoje, é considerada até normal.

E foi nessa igreja que até tentei comprar umas lembrancinhas para dar para alguns familiares. O problema é que não havia muitas opções, sem contar que as vendedoras, todas freiras, assustavam qualquer cliente com seu odor de pelo menos uma semana sem tomar banho e uma barba quase tão longa quanto à de freis ortodoxos. Não sei quem disse que para ser religioso é necessário se esquecer de si. Se o indivíduo não gosta de si mesmo, como vai ajudar os outros, função primordial de um religioso?

Em, voltando a caminhar, passei pela gruta onde Judas teria traído Cristo e, por fim, parei no Túmulo da Virgem, construção do século XII, entre as mais espetaculares de Jerusalém. E o que chama mais a atenção é a escadaria de 47 amplos degraus, ladeados por túmulos de reis católicos, que levam ao subterrâneo onde teria sido sepultada a Virgem Maria, cujos espólios teriam sido transportados de Efésio a Jerusalém pelos cruzados. É difícil descrever o local, iluminado por lamparinas coloridas e que em muito lembram as construções russas, já é administrado pela igreja ortodoxa russa. Não é uma igreja grande e nem possui o tradicional formato de cruz. Logo após descer as escadas, caio num amplo corredor, tendo de um lado o túmulo da virgem e de outro um salão, com pinturas sobre as paredes que contam momentos da vida de Cristo ainda jovem, aprendendo com o pai a profissão de carpinteiro.

Já meio cansado e com minha amiga Hanni me esperando do lado de fora da Porta de Jaffa, saí em disparada em direção à Porta dos Leões, a partir de onde peguei a Via Dolorosa, menor caminho até meu destino final. Claro que, no meio desse caminho, mesmo correndo feito um doido, não pude deixar de dar uma paradinha na casa onde Maria teria nascido, hoje nos subterrâneos de uma igreja. É difícil acreditar que alguém anônimo na época, como é o caso de Maria, tivesse a casa onde nasceu identificada e conservada tanto tempo depois. De qualquer modo, fiz minha rápida parada e segui novamente minha caminhada.

Mais alguns minutos e lá estava eu do lado de fora da Porta de Jaffa, onde minha amiga me aguardava. Não havia mudado muito desde a última vez que a havia visto em Buenos Aires. Depois de nos cumprimentarmos, perguntou em seu inglês macarrônico o que desejava fazer e eu respondi num inglês não muito distante do seu o que esperava daquela tarde.

Bem, eu queria visitar a Basílica da Natividade, logo ali, em Belém, mas pelo seu tom de voz, Hanni deu a entender que não poderia ir até lá, já que o local fica em terras palestinas e ela é israelense. Foi então que resolvemos fazer um city tour, parando em algumas colinas em torno da cidade e das quais podia ver Jerusalém de vários ângulos.

Paramos para algumas fotos, tomamos algo num barzinho e seguimos cidade nova adentro para pegar uma bela estrada, em meio a uma floresta de pinheiros, totalmente plantada, que dava numa cidadezinha nem um pouco turística, onde passamos algumas horas entre almoço e café. A cidade se chama Ein-Kerem e o local onde almoçamos, que dava de frente para a tal floresta, Brasserie Ein-Kerem. Aliás, o local é tão agradável que, embora não costume fazer propaganda, acho que vale deixar aqui registrado o site do local: www.2eat.co.il/eng/brasseriejer. Não me lembro o que comi, mas lembro que gostei muito. O local era tão agradável, bem como a comida e a companhia, que o inglês enferrujado nem chegou a ser um problema para hora de conversa, que se prolongaram mais um pouco, num rápido jantar em Cesaréia.

Mas antes de chegar à antiga cidade portuária, passamos rapidamente por Tel-Aviv, cidade que lembra Nova York, ou São Francisco, com construções moderníssimas. Aliás, falando em modernidade, não pude deixar de me surpreender com o fato de Israel fornecer acesso à internet de alta qualidade e de graça para qualquer um. Basta escolher a rede com melhor sinal, se conectar e sair navegando. Isso sim é primeiro mundo, embora problemas de outra ordem afetem o local.

E eis que chegamos às ruínas de Cesaréia, já noite adentro, vendo seus antigos edifícios, ou o que sobrou deles, com aquela iluminação que valoriza qualquer pedaço de pedra sem valor (o que não de um patrimônio da humanidade?). A cidade foi construída por Herodes, em homenagem a César Augusto, sobre os vestígios de um antigo porto fenício. Possuía um grande anfiteatro, hoje completamente restaurado e palco de grandes espetáculos que, infelizmente, não pude assistir.

Já era tarde quando Hanni me deixou na rodoviária de Tel-Aviv, onde me despedi dela e peguei o ônibus para Jerusalém. No começo, senti um pouco de insegurança com o local, mas depois, como se diz por aqui, entreguei a Deus e segui minha viagem de pouco menos de uma hora na maior tranquilidade.

Estava tão tranquilo, que desci do ônibus na rodoviária de Jerusalém, segui para a faixa de pedestres, aguardei os veículos em trânsito passarem e atravessei em direção a um taxi. No meio do caminho, porém, um desvairado gritava atrás de mim e só parou quando conseguiu me interceptar. Perguntou com as mãos se eu era surdo, ao que respondi que não falava sua língua. Indagou, então, onde ia, ao que apontei para o ponto de táxi, informando que estava a caminho do hotel.

Já dentro do taxi, perguntei ao motorista, um jovem de 29 anos, de origem síria, chamado Salmon, quem eram aqueles homens (às vezes mulheres) em roupas verde-limão. Ele me respondeu, num inglês sofrível, que se tratavam de homens da guarda (aliás, ele também era um policial voluntário, trabalho que fazia durante 2 horas por dia). Somente aí que me dei conta que, bem por pouco, escapei de levar um tiro por não ter entendido que o fulano gritava em hebraico atrás de mim.

Mais um pouco e me via diante da Porta de Damasco novamente onde, no dia seguinte, o mesmo motorista me pegaria bem cedo para me levar até a fronteira, onde outro motorista me aguardava para iniciar a segunda parte desta viagem, agora em terras jordanianas.

Caminhei ainda alguns minutos até chegar no hotel. O silêncio era grande, pois àquela hora o vai-vem de pessoas dava uma pausa, pelo menos até que os primeiros raios de sol despontassem novamente no horizonte. Apenas um ou outro soldado em alguns cantos da cidade, que dormia o sono dos justos, coisa que também queria fazer, depois de um dia tão rico de informações.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

UM HOMEM E MUITOS SONHOS ...

Assumi o compromisso de escrever para a edição de 2012 da Itália em São Paulo sobre o primeiro automóvel fabricado no Brasil. Ocorre que, no curso da minha pesquisa, descobri uma família com o empreendedorismo gravado em seu código genético, de modo que falar sobre a Romi-Isetta, sem falar um pouco de Americo Emilio Romi e seus filhos é como iniciar uma história já pelo clímax.

Filho de imigrantes italianos, vindos para o Brasil nos idos de 1890, em fuga da crise econômica que assolava a Itália recém unificada, o fundador das Indústrias Romi, nascido no interior de São Paulo, foi registrado Americo por vontade do pai, mas sempre chamado de Emilio pela mãe, com quem passou mais tempo durante sua infância.

E se foram as oportunidades de trabalho que trouxeram os Romi para o Brasil, também foram elas que os levaram de volta para a Itália. Trabalhando como maquinista na companhia de trans Mogiana, emprego que perderia por conta das leis de proteção ao trabalhador brasileiro, o pai de Americo Emilio Romi acabou contraindo bronquite asmática que, sem cura na época, fê-lo retornar com a família para sua terra natal, onde encontraria um clima mais propício para o tratamento de sua doença e um ambiente no qual o filho poderia melhorar sua formação acadêmica e, consequentemente, ter acesso a boas oportunidades de trabalho.
Na escola, o jovem Romi demonstrou ter vindo para esse mundo com a missão de vencer e formou-se no curso técnico de eletrotécnica, no ano de 1914, com nota máxima.

Nesse mesmo ano, estoura a 1ª. Guerra, da qual a Itália toma parte no ano seguinte. Para a empreitada, convoca todos os jovens em idade militar, o que inclui o protagonista desta história, mesmo contra a vontade da mãe, que alegava ser o filho brasileiro (tese frágil, já que o que contava era o jus sanguinis, princípio pelo qual é a nacionalidade dos pais que determina a dos filhos).

Durante sua campanha, envolve-se num ataque das forças inimigas e, por bem pouco não perde a vida. E como nada na vida acontece sem razão, durante sua permanência no hospital militar, apaixona-se pela enfermeira que o tratava, viúva de outro combatente de guerra e mãe de um menino que viria a se tornar seu cúmplice em todas as empreitadas da sua vida futura.

Cumplicidade também envolveu o casal Americo e Olimpia, ou simplesmente Pia, como era carinhosamente chamada pelo marido. Ele trabalhava incessantemente, primeiro só e depois com a ajuda dos filhos, e ela sempre a cuidar da casa e das finanças da família, controlando com pulso firme todos os dispêndios, evitando desperdícios e, certamente, com isso contribuindo para os projetos de Romi e de seu enteado, Carlo Chiti.
Mas não foi na Itália que o casal quis escrever sua história, bem sim no Brasil, onde Americo Romi havia nascido. E lá vão eles em busca da terra de oportunidades e que ainda hoje demonstra ser o horizonte de tantos italianos.

O ano era 1923 e o destino a capital paulista, que já àquela época parecia oferecer mais oportunidades. E foi assim que “Seu” Emilio, como ficou conhecido de todos aqui no Brasil, abriu seu primeiro negócio, uma oficina de reparação de veículos, na esquina da Avenida Paulista com a Consolação.

O primeiro negócio foi muito bem, sobretudo porque funcionava num horário em que todos os concorrentes estavam fechados. Entretanto, uma rebelião tenentista que tomou conta da cidade em meados de 1924 pôs fim a esse capítulo da história dos Romi, dado que a oficina do nosso protagonista foi requisitada por tropas governistas, tendo sido devolvida ao final da revolução completamente em frangalhos.

Depois de um breve período na Alfa-Romeo, decide abrir outra oficina, desta vez no centro da cidade. Essa empreitada também não durou muito, já que o sócio, apaixonado por uma vizinha, roubou o dinheiro do caixa e fugiu para o Rio.

É nesse momento que o embrião da atual Indústrias Romi começa a se formar. Após o incidente que o obrigara a vender sua segunda oficina, “Seu” Emilio resolve fazer um giro pelo interior de São Paulo, em busca de um lugar para se estabelecerem, sem sobressaltos.

O novo lar dos Romi era Americana, onde Americo conseguiu um emprego numa concessionária Chevrolet, trabalho que levou com determinação até o estouro da crise econômica de 1929, quando seus empregadores viram-se obrigados a cortar pessoal e a diminuir salários. Acreditando-se um peso para os patrões e não sendo homem de trabalhar como empregado, mas como patrão, resolve pedir demissão e dar vazão a mais um sonho.
E o sonho agora era o de montar nova oficina, desta vez para atender à demanda da indústria sucro-alcooleira concentrada em Santa Bárbara, logo ali, a poucos quilômetros de Americana. No começo, debaixo de muita desconfiança, eram prestados serviços de reparos, mas com o tempo, a oferta englobou o fornecimento de peças de reposição, lubrificantes e pneus, até que, após passar por mais uma turbulência (Revolução Constitucionalista de 1932), decide ir além e fabricar máquinas agrícolas inteiras (semeadeiras, adubadeiras etc.) que, debaixo de muita dedicação, grande tino comercial e avanços tecnológicos que chegaram ao Brasil (máquinas de solda, que substituíram o rudimentar processo de caldeamento), tiveram grande sucesso, não apenas no mercado brasileiro, mas em diversos países da América do Sul.

Mas aí veio a 2° Guerra, a falta de material e tempo para repensar o destino dos negócios. Perceberam, então que, com a Guerra, a florescente indústria brasileira, assim como a Romi, carecia não somente de matérias primas, mas também de peças mecânicas, o que fazia sobrecarregar enormemente o trabalho das oficinas, que careciam de tornos para dar vazão a seu trabalho. E foi aí que resolveram fabricar tornos, cerne do que é a atual atividade do grupo.

Falando assim, parece que foi tudo linear, mas não foi não. Os desafios foram muitos, mas quem nasce empreendedor consegue superá-los com voracidade. E com essa força de vencer, foi produzido o primeiro torno (que por questão de imagem, foi apresentado a mercado como sendo o n° 101), ao qual seguiram-se cerca de 1.700 por ano até o final da guerra (número que superou 2 mil unidades cerca de 10 ano depois e que chegou a ser exportado para mais de 50 países).

E depois dos tornos, seguiu-se a busca contínua por tecnologia, a fabricação de tratores, a abertura de um jornal, a gestão da prefeitura de Santa Bárbara (que passou por um salto de qualidade no mandato de Americo Romi) e, quando parecia ter feito de tudo, Americo e seu enteado resolveram produzir no Brasil seu primeiro automóvel.

A inspiração foi uma reportagem lida por Carlo Chiti no ano de 1955 e que tratava de um pequeno automóvel recém lançado na Europa, o Isetta, que caia como uma luva no sonho de ambos de fabricar um pequeno utilitário, seguro, de baixo custo e que fizesse crescer o mercado e as riquezas nacionais.

Com design aerodinâmico revolucionário, em forma de gota, uma única porta frontal, que facilitava o acesso ao seu interior, cabine inteiramente envidraçada, como nos caças a jato (possibilitando grande visibilidade), amplo uso de materiais leves, como o alumínio (resultando em elevada eficiência energética), ergonomia avançada (com todos os comandos ao alcance da mão) e cuidados com a localização do centro de gravidade (resultando em grande estabilidade), o Isetta, projeto do engenheiro aeronáutico Ermenegildo Pretti e de seu assistente, Pierluigi Raggi, acomodava confortavelmente duas pessoas e, com certo aperto, até três. Tinha 2,25m de comprimento por 1,40m de largura. O motor, bem distante dos carros populares de hoje, possuía apenas 236 cilindradas, mas fazia até 30Km com um litro de combustível. Outra característica interessante do pequeno Iso (nome da fabricante italiana, estabelecida nos arredores de Milão) residia na bitola traseira, que era a metade da dianteira.

O câmbio do Isetta possuía quatro marchas para frente e uma de ré. Quanto à manutenção, dizem que era fácil e que o pequenino conseguia trafegar nas piores estradas e ruas, em qualquer tempo.

Bastante robustos, participaram das 1000 Milhas de 1954 (tradicional corrida com circuito de rua, abolida há algumas décadas depois de um grave acidente) e atingiram uma média de 79Km/h, resultado superior ao da vencedora da primeira prova.

Pois bem, Americo e Carlo foram à Itália, compraram dois Isettas e, tendo obtido autorização da Iso, após dissecarem o veículo e compreenderem como funcionava, centímetro por centímetro, assim como já haviam feito nos outros setores em que atuavam ou atuaram, em 30 de junho de 1956 passaram a produzir o primeiro automóvel de passeio com 72% de índice de nacionalização (os demais, então fabricados, eram montados a partir de peças completamente importadas das casas matrizes). O nome dele, nada mais justo, era Romi-Isetta.

Mas a ousadia no campo técnico não teria valido de nada se o tino comercial de Chiti não tivesse idealizado uma campanha promocional (impensável nos dias de hoje) que incluiu um desfile de 16 carros, a partir da primeira concessionária, estabelecida no centro de São Paulo (e também em outras cidades), com benção episcopal e voltinha com a primeira dama do estado, Dona Eloá Quadros, bem como aparições no cinema e na televisão, fazendo do pequeno possante a coqueluche do momento, condição refletida no slogan da campanha: O lado bom da vida é o lado de dentro de um Romi-Isetta.

Manchetes dos principais jornais da época eram unânimes em dizer: “A Romi se antecipou aos projetos governamentais de Juscelino, estabelecendo um marco na industrialização brasileira”.

O Romi-Iseta também entrou na onda feminista da época, já que, de fácil manuseio, mostrava que dirigir também era coisa de mulher, que viu no pequeno um meio de transporte para ir às compras, fazer visitas e passeios.

Em 1959, depois de uma bem sucedida negociação com a BMW, que passou a fornecer os motores, é lançado do Romi-Isetta 300 de Luxe, com importantes modificações que visavam aumento de desempenho e grande economia de combustível.

Em 1960, a consagração: Romi-Isettas vindos de todo o país chegam à nova capital brasileira. Era a Caravana de Integração Nacional, recebida por JK em pessoa, que não se furtou de dar uma volta num modelo coupè.

Em 1961, com o Plano Nacional da Indústria Automobilística (focado em veículos para 4 ou mais passageiros e não nos compactos) em pleno vigor e a presença de diversas casas automobilísticas no cenário brasileiro, como Vemag, VW, Simca, Willys, Toyota e FNM, a Romi decidiu que era hora de cessar a produção e, em 13 de abril de 1961, o último Romi-Isetta, um exemplar branco e amarelo-limão, deixa a linha de produção.

Encerrou-se naquele dia um marco na história deste país. Um produto totalmente adiante de seu tempo (basta que pensemos nas atuais discussões sobre a economia de combustível e a redução da emissão de gases tóxicos).

Cerca de 2 anos antes, porém, as cortinas já se haviam fechado para o mentor de tudo. Alguém que fazia questão de tratar os funcionários como companheiros, co-participantes, co-responsáveis. Só assim, segundo seu modo de ver as coisas, é que dariam o máximo. E foi dentro partindo dessa óptica que 2 anos antes de deixar esse mundo, Emílio e Olímpia doam todos os seus bens pessoais à Fundação Romi, entidade criada com o escopo formar, assistir, apoiar e, assim, fazer o mundo evoluir. Função que, em certos pontos, deveria ser cumprida pelo governo, do qual Americo Emilio Romi nunca se achou em situação de precisar.


No cortejo fúnebre, pelo menos 15 mil pessoas. Na lápide, um trecho da oração de São Francisco: ...pois é dando que se recebe.