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domingo, 21 de julho de 2013

UM HOMEM E MUITAS IDÉIAS

Depois de falar sobre o Comendador Martinelli, que construiu em São Paulo o primeiro arranha-céu do país, sobre Ugo Castellana, que trouxe o conceito de alta costura para o país e sobre Emilio Romi, instigante personalidade que do nada construiu uma das maiores indústrias metalmecânicas do país, para não falar do Romiseta, um dos primeiros automóveis fabricados no Brasil, quando me incumbi de escrever sobre Victor Civita para a edição de 2013 da Itália em São Paulo, tinha em mente, naturalmente, desvendar mais uma personalidade intrigante que deixou a Itália para ajudar a construir São Paulo.
Para tanto, comecei a maquinar como chegaria a seus filhos e netos, de modo a saber um pouco sobre esse italiano, na verdade nascido em Nova York, sobre as razões que o fizeram vir para o Brasil e sobre as origens de um dos maiores grupos editoriais e de educação da América Latina, com faturamento anual da ordem de 3 bilhões de reais e mais de 9 mil funcionários.
Foi aí que me dei conta que conhecia seus filhos desde a infância, como ninguém, já que havia crescido com eles. Não, não me refiro a Roberto, que encontrei en passant em certo evento social, ou a Richard, cuja existência, confesso, fiquei sabendo há pouco tempo. Refiro-me sim às inúmeras obras editadas pela Abril e que me acompanham desde muito pequeno, antes mesmo que fosse iniciado no universo da leitura.
Revirar a memória em busca dos encontros com esses filhos de Civita me traz lembranças de inúmeros momentos agradáveis, pois numa época em que TV a cabo, computadores, internet e congêneres só existiam na mente de Júlio Verne, HG Wells e outros visionários de plantão, para viajar sem sair de casa ocorria mergulhar em tantos livros quanto o tempo e a vontade permitissem. E como eu tinha vontade de viajar!
Meu primeiro contato com uma obra da Abril deu-se com uma colação de discos de vinil, acompanhados de livrinhos ilustrativos e que contavam diversas histórias da literatura infantil, encenadas pelos personagens da Disney. Nem sei quantas vezes ouvi aqueles discos, cujo fim eu igualmente desconheço. Só sei que muitas dessas histórias ficaram de tal maneira gravadas na minha memória e com uma incrível riqueza de detalhes que, muitos anos depois, quando pude assistir pela primeira vez a muitos dos desenhos animados que contavam as mesmas historinhas infantis, tinha a impressão de estar vendo algo que já tinha visto antes.
E foi assim que fui primeiramente apresentado aos Irmãos Grimm, a Hans Christian Andersen e a Lewis Carroll para, em seguida, com a mesma voracidade e já sabendo ler, atacar as histórias de Monteiro Lobato (numa época em que Tia Anastácia era apenas a personagem que fazia os melhores quitutes do planeta e não objeto de lutas raciais) e uma séria de lendas que permeiam a cultura brasileira.
Mais ou menos na mesma época, caíram nas minhas mãos uma série de manuais, cada um especializado num assunto, todos com histórias vividas por personagens da Disney. Alguns desses livros eu ainda tenho, como o Manual do Professor Pardal, que tratava de invenções e inventores, do Manual do Peninha, que falava sobre a profissão de jornalista, do Manual do Tio Patinhas, que falava sobre grandes fortunas, naturalmente, ou do Manual da Maga Patalógica e da Madame Mim, que discorria sobre histórias da mitologia universal.
Lendo esses livros infantis, sem falar nos gibis, muitos dos quais contando histórias – não só com personagens Disney, mas do Maurício de Souza também –dos grandes clássicos da literatura universal (recentemente reeditados), tomei gosto pela literatura e cada livro que aparecia na minha casa, folheava com o cuidado que se tem por um irmão mais novo.
Foi assim com a coleção Gênios da Pintura, obra que detalha a vida de mestres da pintura universal, cujos trabalhos tive o prazer de conhecer pessoalmente anos depois, mas também com Os Bichos, através da qual conheci dos mais bizarros, aos mais comuns animais, com Grandes Personagens da Nossa História e Grandes Personagens da História Universal, que retratam em imagens e textos a vida de inúmeros personagens que construíram o mundo em que vivemos, com Os Economistas, obra que me apresentou aos pensamentos de Adam Smith e sua Riqueza das Nações, ou ao Manifesto, de Karl Marx, ou ainda, com Nossas Crianças, literatura para adultos aprenderem a lidar com crianças e que me chamava a atenção pelas hilárias tiras da Mafalda.
“Bendito o que semeia livros e manda o povo pensar”, trecho de um poema de Castro Alves e que resume bem o trabalho desse italiano visionário, fazedor e resolvedor de problemas, conforme era descrito por funcionários, colaboradores e parceiros.
Não chegou no Brasil com uma mão na frente e outra atrás, como aconteceu com inúmeros imigrantes, de diversas origens e que ajudaram a construir este país. Na verdade, contava com polpudos 500 mil dólares de recursos próprios (tanto pai, quanto a mãe tinham origens abastadas), além de empréstimos que levantou na praça e outros conseguidos por meio de sociedade com importantes grupos da época. Sua condição financeira, porém não lhe tira o brilho de ter empreendido um negócio num país que lhe era totalmente estranho, da língua aos costumes, e num segmento que depende do gosto pela leitura que, convenhamos, nem mesmo hoje está enraizado entre os brasileiros.
O fato é que o homem parecia não perder uma boa oportunidade e, num encontro que teve com seu irmão mais velho, durante férias que passavam na Itália (àquela altura, deixando para trás o caos da Guerra, os Civita já não mais viviam na terra natal), escutou com atenção a experiência dele com uma editora, chamada Abril, que havia aberto na Argentina. O empreendimento nasceu da experiência de César no ramo, adquirida quando ainda morava na Itália, onde trabalhava numa das maiores editoras italianas, a Mondadori, e onde se tornara responsável pela versão italiana das revistas Disney. Ora, com a eclosão da Guerra, no final dos anos 30, procurou por Walt Disney, nos Estados Unidos, e obteve dele licença para publicar suas revistas na América do Sul.
Conversa vai, conversa vem, e César afirma que andava meio desconfiado dos rumos da política na Argentina, com a ascensão de um certo líder populista, com perfil bastante semelhante ao de outros líderes populistas que levaram a Europa à Guerra, o que lhe fazia ter vontade de abrir o mesmo negócio no país vizinho, que lhe parecia promissor.
Essas palavras soaram como música para Victor, que interrompeu suas férias e voou imediatamente para Buenos Aires conhecer a tal Editorial Abril e, em seguida, para o Rio de Janeiro e São Paulo, que lhe pareceu mais simpática e próxima dos centros cosmopolitas onde estava acostumado a viver (primeiro Milão e depois Nova York), decidindo ali se estabelecer (apesar de conselhos contrários, em virtude da falta de jornalistas, de artistas gráficos e uma série de recursos que a acanhada província de então não dispunha).
Tudo muito rápido, como deve ser no mundo dos negócios, e em cinco meses a família estava estabelecida no centro de São Paulo (mais precisamente no Hotel Esplanada, edifício hoje ocupado pela sede do Grupo Votorantim), muito próxima do endereço, na Líbero Bararó, escolhido para acolher a Editora Abril, que no dia 12 de julho de 1950 publica o primeiro número de O Pato Donald (cheguei a ter uma reedição desse primeiro número, que contava a história do Segredo do Castelo, um clássico!).
Rapidamente, como o nascimento da Abril, O Pato Donald já era a revistinha mais vendida do país e, no seu rastro, seguiram-se outros títulos infantis, mas também as fotonovelas e, já nos anos 1960, em meio ao nascimento da indústria automobilística brasileira, uma publicação dedicada ao setor. Trata-se da Quatro Rodas.
Mas o sucesso não para por aí e, ao perceber o crescimento da classe média, resolveu lançar os livros em fascículos. Novamente, foi desaconselhado e, novamente, contra todos, resolveu seguir seu instinto, deixando para seus diretores apenas a opção de lançar uma enciclopédia, sua primeira opção, e uma edição da Bíblia Sagrada, de criação da italiana Fabbri e intitulada A Bíblia mais Bela do Mundo. Os diretores optaram pela Bíblia, que vendeu mais de 150 mil cópias, deixando a enciclopédia para um segundo momento. Pois bem, a enciclopédia era a Conhecer (fecho os olhos e me vejo debruçado sobre esses livros, fazendo meus trabalhos escolares), publicação que bateu a marca dos 500 mil exemplares. Que tino para os negócios tinha esse homem!
Tudo lhe parecia possível e, ao propor a seu filho mais velho a criação de uma cadeira de hotéis turísticos, ouviu uma negativa, que ignorou e hoje temos a cadeia de hotéis Quatro Rodas. É verdade que não sabemos nada sobre hotéis, disse ao filho, mas também é verdade que o Nick Hilton não sabia nada sobre esse assunto quando resolveu abrir sua cadeia de hotéis. Também notou que no país não haviam armazéns refrigerados e, mais uma vez, lançou-se no escuro, com o mesmo sucesso das demais empreitadas.
Via oportunidade em tudo. Se notava que algo não existia, ao invés de pensar que  não existia porque não havia mercado para aquilo, preferia pensar que não existia porque ninguém havia tido aquela ideia antes.
Claro que empreendedorismo sem dedicação não geram sucesso e Civita pode ser considerado o ídolo dos perfeccionistas. Chegava cedo, saia tarde, tinha a mesa impecável e incrível atenção nos detalhes, do layout aos textos que seus editores preparavam, sem deixar passar um erro ortográfico (e o português não era sua primeira língua!).
Achava que tinha que educar o povo, que com o gosto pela leitura, compraria mais livros, fascículos e revistas, de uma série que, atualmente, passam pelo campo do entretenimento, da moda, da decoração, da política e dos fatos quotidianos, do turismo, do automobilismo, dos negócios e por aí vai. Com essa ideia na cabeça de educar, criou uma Fundação, que leva seu nome e que tem por missão “contribuir para a melhoria da qualidade da Educação Básica no Brasil, produzindo conteúdo que auxilie na capacitação e valorização de professores e gestores e influencie políticas públicas”.
Alguém pode se questionar: tinha que ter feito isso? Tinha que ter destinado após a morte todo o seu patrimônio em dinheiro, imóveis e ações (aos filhos deixou as empresas, pois achava que se não conseguissem sobreviver delas, não eram dignos de as receberem ) para essa fundação? E eu respondo, não tinha. Educação ainda é uma das prerrogativas do governo. Entretanto, já que o governo não faz, ou pelo menos não como deveria fazer, Civita resolveu prestar seu auxílio e, talvez por isso mesmo, tenha definitivamente gravado seu nome na história deste país. Deixou sua marca e confesso que, ao saber que havia morrido, senti um certo aperto, como se tivesse perdido alguém muito próximo e que, de fato, de certo modo me foi muito próximo.
Numa das obras editadas por sua empresa e por ele prefaceadas no longínquo 1969, faz citação a Monteiro Lobato e lembra que um país se faz com homens, livros e, adiciona Civita, exemplos. Nesse mesmo texto, exalta a jovem nação brasileira, de proporção continental, tão assoberbada de problemas quanto acumulada de riquezas, e afirma que o Brasil deve sua grandeza, sua liberdade e projeção internacional à ousadia dos bandeirantes, à fé dos catequistas, ao idealismo dos inconfidentes, à sabedoria dos legisladores e à inteligência, coragem e dedicação dos seus soldados, diplomatas e artistas. É o exemplo dessas personalidades, continua, que desejo projetar no futuro das gerações, como lição e incentivo. Creio ter ele cumprido sua missão.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

UM HOMEM E MUITOS SONHOS ...

Assumi o compromisso de escrever para a edição de 2012 da Itália em São Paulo sobre o primeiro automóvel fabricado no Brasil. Ocorre que, no curso da minha pesquisa, descobri uma família com o empreendedorismo gravado em seu código genético, de modo que falar sobre a Romi-Isetta, sem falar um pouco de Americo Emilio Romi e seus filhos é como iniciar uma história já pelo clímax.

Filho de imigrantes italianos, vindos para o Brasil nos idos de 1890, em fuga da crise econômica que assolava a Itália recém unificada, o fundador das Indústrias Romi, nascido no interior de São Paulo, foi registrado Americo por vontade do pai, mas sempre chamado de Emilio pela mãe, com quem passou mais tempo durante sua infância.

E se foram as oportunidades de trabalho que trouxeram os Romi para o Brasil, também foram elas que os levaram de volta para a Itália. Trabalhando como maquinista na companhia de trans Mogiana, emprego que perderia por conta das leis de proteção ao trabalhador brasileiro, o pai de Americo Emilio Romi acabou contraindo bronquite asmática que, sem cura na época, fê-lo retornar com a família para sua terra natal, onde encontraria um clima mais propício para o tratamento de sua doença e um ambiente no qual o filho poderia melhorar sua formação acadêmica e, consequentemente, ter acesso a boas oportunidades de trabalho.
Na escola, o jovem Romi demonstrou ter vindo para esse mundo com a missão de vencer e formou-se no curso técnico de eletrotécnica, no ano de 1914, com nota máxima.

Nesse mesmo ano, estoura a 1ª. Guerra, da qual a Itália toma parte no ano seguinte. Para a empreitada, convoca todos os jovens em idade militar, o que inclui o protagonista desta história, mesmo contra a vontade da mãe, que alegava ser o filho brasileiro (tese frágil, já que o que contava era o jus sanguinis, princípio pelo qual é a nacionalidade dos pais que determina a dos filhos).

Durante sua campanha, envolve-se num ataque das forças inimigas e, por bem pouco não perde a vida. E como nada na vida acontece sem razão, durante sua permanência no hospital militar, apaixona-se pela enfermeira que o tratava, viúva de outro combatente de guerra e mãe de um menino que viria a se tornar seu cúmplice em todas as empreitadas da sua vida futura.

Cumplicidade também envolveu o casal Americo e Olimpia, ou simplesmente Pia, como era carinhosamente chamada pelo marido. Ele trabalhava incessantemente, primeiro só e depois com a ajuda dos filhos, e ela sempre a cuidar da casa e das finanças da família, controlando com pulso firme todos os dispêndios, evitando desperdícios e, certamente, com isso contribuindo para os projetos de Romi e de seu enteado, Carlo Chiti.
Mas não foi na Itália que o casal quis escrever sua história, bem sim no Brasil, onde Americo Romi havia nascido. E lá vão eles em busca da terra de oportunidades e que ainda hoje demonstra ser o horizonte de tantos italianos.

O ano era 1923 e o destino a capital paulista, que já àquela época parecia oferecer mais oportunidades. E foi assim que “Seu” Emilio, como ficou conhecido de todos aqui no Brasil, abriu seu primeiro negócio, uma oficina de reparação de veículos, na esquina da Avenida Paulista com a Consolação.

O primeiro negócio foi muito bem, sobretudo porque funcionava num horário em que todos os concorrentes estavam fechados. Entretanto, uma rebelião tenentista que tomou conta da cidade em meados de 1924 pôs fim a esse capítulo da história dos Romi, dado que a oficina do nosso protagonista foi requisitada por tropas governistas, tendo sido devolvida ao final da revolução completamente em frangalhos.

Depois de um breve período na Alfa-Romeo, decide abrir outra oficina, desta vez no centro da cidade. Essa empreitada também não durou muito, já que o sócio, apaixonado por uma vizinha, roubou o dinheiro do caixa e fugiu para o Rio.

É nesse momento que o embrião da atual Indústrias Romi começa a se formar. Após o incidente que o obrigara a vender sua segunda oficina, “Seu” Emilio resolve fazer um giro pelo interior de São Paulo, em busca de um lugar para se estabelecerem, sem sobressaltos.

O novo lar dos Romi era Americana, onde Americo conseguiu um emprego numa concessionária Chevrolet, trabalho que levou com determinação até o estouro da crise econômica de 1929, quando seus empregadores viram-se obrigados a cortar pessoal e a diminuir salários. Acreditando-se um peso para os patrões e não sendo homem de trabalhar como empregado, mas como patrão, resolve pedir demissão e dar vazão a mais um sonho.
E o sonho agora era o de montar nova oficina, desta vez para atender à demanda da indústria sucro-alcooleira concentrada em Santa Bárbara, logo ali, a poucos quilômetros de Americana. No começo, debaixo de muita desconfiança, eram prestados serviços de reparos, mas com o tempo, a oferta englobou o fornecimento de peças de reposição, lubrificantes e pneus, até que, após passar por mais uma turbulência (Revolução Constitucionalista de 1932), decide ir além e fabricar máquinas agrícolas inteiras (semeadeiras, adubadeiras etc.) que, debaixo de muita dedicação, grande tino comercial e avanços tecnológicos que chegaram ao Brasil (máquinas de solda, que substituíram o rudimentar processo de caldeamento), tiveram grande sucesso, não apenas no mercado brasileiro, mas em diversos países da América do Sul.

Mas aí veio a 2° Guerra, a falta de material e tempo para repensar o destino dos negócios. Perceberam, então que, com a Guerra, a florescente indústria brasileira, assim como a Romi, carecia não somente de matérias primas, mas também de peças mecânicas, o que fazia sobrecarregar enormemente o trabalho das oficinas, que careciam de tornos para dar vazão a seu trabalho. E foi aí que resolveram fabricar tornos, cerne do que é a atual atividade do grupo.

Falando assim, parece que foi tudo linear, mas não foi não. Os desafios foram muitos, mas quem nasce empreendedor consegue superá-los com voracidade. E com essa força de vencer, foi produzido o primeiro torno (que por questão de imagem, foi apresentado a mercado como sendo o n° 101), ao qual seguiram-se cerca de 1.700 por ano até o final da guerra (número que superou 2 mil unidades cerca de 10 ano depois e que chegou a ser exportado para mais de 50 países).

E depois dos tornos, seguiu-se a busca contínua por tecnologia, a fabricação de tratores, a abertura de um jornal, a gestão da prefeitura de Santa Bárbara (que passou por um salto de qualidade no mandato de Americo Romi) e, quando parecia ter feito de tudo, Americo e seu enteado resolveram produzir no Brasil seu primeiro automóvel.

A inspiração foi uma reportagem lida por Carlo Chiti no ano de 1955 e que tratava de um pequeno automóvel recém lançado na Europa, o Isetta, que caia como uma luva no sonho de ambos de fabricar um pequeno utilitário, seguro, de baixo custo e que fizesse crescer o mercado e as riquezas nacionais.

Com design aerodinâmico revolucionário, em forma de gota, uma única porta frontal, que facilitava o acesso ao seu interior, cabine inteiramente envidraçada, como nos caças a jato (possibilitando grande visibilidade), amplo uso de materiais leves, como o alumínio (resultando em elevada eficiência energética), ergonomia avançada (com todos os comandos ao alcance da mão) e cuidados com a localização do centro de gravidade (resultando em grande estabilidade), o Isetta, projeto do engenheiro aeronáutico Ermenegildo Pretti e de seu assistente, Pierluigi Raggi, acomodava confortavelmente duas pessoas e, com certo aperto, até três. Tinha 2,25m de comprimento por 1,40m de largura. O motor, bem distante dos carros populares de hoje, possuía apenas 236 cilindradas, mas fazia até 30Km com um litro de combustível. Outra característica interessante do pequeno Iso (nome da fabricante italiana, estabelecida nos arredores de Milão) residia na bitola traseira, que era a metade da dianteira.

O câmbio do Isetta possuía quatro marchas para frente e uma de ré. Quanto à manutenção, dizem que era fácil e que o pequenino conseguia trafegar nas piores estradas e ruas, em qualquer tempo.

Bastante robustos, participaram das 1000 Milhas de 1954 (tradicional corrida com circuito de rua, abolida há algumas décadas depois de um grave acidente) e atingiram uma média de 79Km/h, resultado superior ao da vencedora da primeira prova.

Pois bem, Americo e Carlo foram à Itália, compraram dois Isettas e, tendo obtido autorização da Iso, após dissecarem o veículo e compreenderem como funcionava, centímetro por centímetro, assim como já haviam feito nos outros setores em que atuavam ou atuaram, em 30 de junho de 1956 passaram a produzir o primeiro automóvel de passeio com 72% de índice de nacionalização (os demais, então fabricados, eram montados a partir de peças completamente importadas das casas matrizes). O nome dele, nada mais justo, era Romi-Isetta.

Mas a ousadia no campo técnico não teria valido de nada se o tino comercial de Chiti não tivesse idealizado uma campanha promocional (impensável nos dias de hoje) que incluiu um desfile de 16 carros, a partir da primeira concessionária, estabelecida no centro de São Paulo (e também em outras cidades), com benção episcopal e voltinha com a primeira dama do estado, Dona Eloá Quadros, bem como aparições no cinema e na televisão, fazendo do pequeno possante a coqueluche do momento, condição refletida no slogan da campanha: O lado bom da vida é o lado de dentro de um Romi-Isetta.

Manchetes dos principais jornais da época eram unânimes em dizer: “A Romi se antecipou aos projetos governamentais de Juscelino, estabelecendo um marco na industrialização brasileira”.

O Romi-Iseta também entrou na onda feminista da época, já que, de fácil manuseio, mostrava que dirigir também era coisa de mulher, que viu no pequeno um meio de transporte para ir às compras, fazer visitas e passeios.

Em 1959, depois de uma bem sucedida negociação com a BMW, que passou a fornecer os motores, é lançado do Romi-Isetta 300 de Luxe, com importantes modificações que visavam aumento de desempenho e grande economia de combustível.

Em 1960, a consagração: Romi-Isettas vindos de todo o país chegam à nova capital brasileira. Era a Caravana de Integração Nacional, recebida por JK em pessoa, que não se furtou de dar uma volta num modelo coupè.

Em 1961, com o Plano Nacional da Indústria Automobilística (focado em veículos para 4 ou mais passageiros e não nos compactos) em pleno vigor e a presença de diversas casas automobilísticas no cenário brasileiro, como Vemag, VW, Simca, Willys, Toyota e FNM, a Romi decidiu que era hora de cessar a produção e, em 13 de abril de 1961, o último Romi-Isetta, um exemplar branco e amarelo-limão, deixa a linha de produção.

Encerrou-se naquele dia um marco na história deste país. Um produto totalmente adiante de seu tempo (basta que pensemos nas atuais discussões sobre a economia de combustível e a redução da emissão de gases tóxicos).

Cerca de 2 anos antes, porém, as cortinas já se haviam fechado para o mentor de tudo. Alguém que fazia questão de tratar os funcionários como companheiros, co-participantes, co-responsáveis. Só assim, segundo seu modo de ver as coisas, é que dariam o máximo. E foi dentro partindo dessa óptica que 2 anos antes de deixar esse mundo, Emílio e Olímpia doam todos os seus bens pessoais à Fundação Romi, entidade criada com o escopo formar, assistir, apoiar e, assim, fazer o mundo evoluir. Função que, em certos pontos, deveria ser cumprida pelo governo, do qual Americo Emilio Romi nunca se achou em situação de precisar.


No cortejo fúnebre, pelo menos 15 mil pessoas. Na lápide, um trecho da oração de São Francisco: ...pois é dando que se recebe.