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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

DESTINO: Itália


Não importa se o destino é a Itália ou uma cidade do litoral do nordeste, a palavra de ordem quando se pensa em tirar aquelas tão sonhadas férias é planejamento, que já começa com a escolha de uma boa companhia aérea e na categoria mais confortável que o bolso pode pagar.

Comprando os bilhetes com antecedência, é possível conseguir bons preços, além de parcelar o pagamento em diversas vezes (sem juros!), o que acaba diluindo o investimento ao longo dos meses que antecedem a viagem. A TAM, por exemplo, está com promoções ótimas para bilhetes adquiridos até o dia 31 de dezembro. Ida e volta em executiva para Milão, com saída em meados de junho e permanência de 3 semanas, está custando cerca de R$ 10.500. Já se for em econômica, o preço cai para R$ 3.500. Claro que o ideal é comprar um bilhete em econômica e pedir um upgrade para a executiva. Melhor panorama ainda é aquele em que os bilhetes podem ser trocados totalmente por pontos e isso requer,dependendo da companhia aérea, de 2 a 3 meses de antecedência.

Bem, se seu destino é a Itália, independentemente da companhia aérea que for utilizar, sugiro que comece a viagem por Roma e depois vá subindo, de carro, para terminar em Milão, de onde a maioria dos voos intercontinentais parte.

Você chega em Roma, mas sua viagem não começa propriamente em Roma. Vai apenas fazer uma parada técnica, pois depois de mais de 12 horas de viagem, vai querer se refrescar, trocar de roupa e, aí sim, começar a viagem. Aproveite essas poucas horas em solo romano para se refazer, alugar um carro e fazer um reconhecimento do terreno.

Para essa primeira noite, sugiro um hotel perto do aeroporto, de fácil acesso às rodovias e também ao centro da cidade. Isso tudo parece difícil de encontrar, mas não é. Existem vários hotéis ao longo da Cristoforo Colombo, uma das principais avenidas da cidade, que liga o centro ao mar ( o Aeroporto Internacional de Fiumicino, na verdade, não fica em Roma, mas na cidade de Fiumicino, antigo porto romano), onde você pode passar a primeira noite em Roma. Eu recomendo o Sheraton Roma Hotel & Conference Center (Viale Pattinaggio, 100), cuja diária, com café da manhã (ótimo!), em apartamento duplo (alguns novos, outros nem tanto ...), sai por 153 euros. Para chegar lá, de Fiumicino, só de taxi (deixe para pegar o carro no dia seguinte, pois não vai usar carro em Roma), mas como a distância não é grande, não vai gastar mais do que uns 30 euros. Se já preferir ir motorizado, fique tranquilo, que o hotel tem estacionamento (mas deixe o carro lá, pois ir ao centro de Roma de carro é impossível, já que a cidade não foi feita para a circulação de carros e menos ainda para eles pararem).

O valor das corridas de taxi podem ser verificados no site http://rome.taxi-airports-transfer.com enquanto que o aluguel de carros pode ser feito em diversas locadoras, quase todas com escritórios na saída do aeroporto. Eu costumo usar a Europcar (www.europcar.pt), mas se preferir Avis, ou Localiza, ficam todas uma ao lado da outra.
O custo do aluguel do carro depende, naturalmente, do tamanho do carro e do período de uso (quanto maior o número de dias, menor a diária). Eu sugiro um Classe A, ou uma Lancia Y, que possuem porta-malas suficientes para 2 malas grandes e (talvez) 2 pequenas. O preço é razoável, são econômicos e fáceis de dirigir. Em qualquer caso, um GPS é condição sine-qua-non para encarar as estradas.
Falando em estradas, não se estresse com trocados para pagar os pedágios, pois todos eles (pelo menos todos os que já usei e não foram poucos), aceitam cartão de crédito. É tudo automático. Você pega o bilhete quando acessa a rodovia e, como se tivesse saindo do estacionamento de um shopping, quando deixar a rodovia ao chegar no seu destino, insere o bilhete no local indicado, depois o cartão de crédito e já tem a despesa debitada. Se quiser um recibo, é só responder sim para a máquina, mas como isso vai ser difícil de entender, já fique contente de ter pagado tudo sem formar uma fila quilométrica atrás de você. Na dúvida, entre na fila do pedágio atendida por uma pessoa (eu prefiro a máquina ...).
Bem, de banho tomado, pegue o ônibus do hotel (o bilhete você pega na recepção e paga somente no check-out) e desça no centro (na verdade, ele para nas imediações do Teatro di Marcello) e, de lá, siga explorando a parte romana de Roma (sendo uma cidade milenar, Roma possui vários percursos a serem visitados). Siga pela Via del Teatro di Marcello em direção à Via dei Fori Imperiali, percorra-a até o final, contorne o Coliseu (em Italiano, Colosseo), siga pela Via Celio Vibenna e depois pela San Gregorio, para virar na Via del Circo Massimo, que você vai percorrer até chegar no rio, passar em frente à Ilha (isola) Tiberina, para entrar na Via del Foro Olitorio e retornar ao local onde o ônibus do hotel passa (se quiser, também pode voltar de metrô, mas vai ter que caminhar um pouquinho, pois a estação mais próxima do hotel, não fica propriamente perto do hotel e caminhar à noite naquela região não é muito bom).

Se quiser, quando retornar a Roma, depois de ter descido a Nápoles, Pompéia e Amalfi, pode entrar em alguma atração que tiver chamado mais atenção. Eu dispensaria caminhar pelos Fóruns Imperiais (www.capitolium.org), ou entrar no Coliseu (www.il-colosseo.it). Dependendo do seu gosto, porém, pode valer à pena uma visita aos Museus Capitolinos (www.museicapitolini.org), de onde você tem uma bela vista dos Fóruns.

Com jet-leg e tudo mais, melhor voltar para o hotel cedo, comer algo no bar da piscina, dormir bem e começar ao dia, depois de um café bem reforçado, com muita disposição.

Se já tiver alugado o carro, carregue as malas e parta em direção a Nápoles, que fica a 228Km do Sheraton, seguindo pela A1. Eu nunca me hospedei num hotel em Nápoles (somente uma vez, mas prefiro riscar aquilo da minha memória), onde normalmente fico com amigos, mas um hotel que parece ser bom (pelo menos é bem recomendado entre os internautas) é o Hotel Tiempo (www.hoteltiempo.it). Fica bem localizado (perto do metrô), não muito longe do acesso à rodovia, além de custar cerca de 100 euros por noite para duas pessoas.

Se o hotel for bom, fique duas noites, pois vai precisar disso para conhecer um pouco de Nápoles (lembra um pouco Salvador, ou seja, abra os olhos!), visitar Pompéia (ou Ercolano) e Capri.

Em Nápoles, há cinco coisas que recomendo visitar: o Palácio Real (http://palazzorealenapoli.beniculturali.it), a Via San Gregorio Armeno (http://it.wikipedia.org/wiki/Via_San_Gregorio_Armeno), a Cappella Sansevero (www.museosansevero.it), a Galleria Umberto I (http://en.wikipedia.org/wiki/Galleria_Umberto_I) e o Parco di Capodimonte (www.boscodicapodimonte.it).

O Palácio Real é uma das 3 residências oficiais do Reino das Duas Sicílias. Não é a mais faustosa. Esse título é da residência de Caserta (cidade que fica no caminho entre Roma e Nápoles) e que, segundo alguns, é mais bonita que Versalles. De qualquer modo, é interessante do ponto de vista arquitetônico e também por conta de algumas peças expostas.

A Via San Gregorio Armeno é muito característica, tanto do ponto de vista arquitetônico (as coisas ali estão meio caídas, mas num país com mais de 2 mil anos, o que não está?) e social. Além disso, reúne um grande número de ateliês onde são fabricados (e vendidos!) os famosos presépios napolitanos, cujo representante máximo, no Brasil, foi trazido por Ciccillo Matarazzo e hoje está custodiado no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Lá você encontra desde peças apenas bonitinhas até verdadeiras obras de arte, feitas em papel machê.

Nas imediações da San Gregorio Armeno, é impossível de deixar de visitar a Igreja, hoje museu, de Sansevero. O prédio, em si, não tem nada de mais. Entretanto, ele custodia uma das mais belas esculturas que já vi em minha vida e que põem no chinelo obras de Fidias, grande artista grego, ou mesmo de Bernini, um dos maiores escultores de todos os tempos (não me atrevo a incluir Michelangelo na comparação, pois o conjunto de suas obras não tem igual). Trata-se do Cristo Velato, realizada por Giuseppe Sanmartino em 1753. Não há nada no mundo que se iguale a essa obra em mármore de Carrara, que representa o corpo de Cristo deposto da cruz, coberto por um véu, que parece ter sido colocado sobre a estátua, dada sua sutileza, muito embora seja parte dela e, portanto, também de mármore.

A essa altura, já com fome, sugiro um passeio pela Galleria Umberto I, fantástica obra em estilo Liberty, muito semelhante a outra, localizada em Milão, chamada Vittorio Emanuele II. O ambiente é agradável, construído em ferro e com grande quantidade de vitrais e mosaicos, típicos da época. Possui de lojas de grife e livrarias, além de alguns bares onde poderá degustar um lanche rápido, ou uma genuína pizza Margherita, criada em Nápoles para homenagear a Rainha Margherita.

Se o tempo estiver bom, aproveite a parte da tarde para caminhar pelos Jardins de Capodimonte, sede da terceira residência oficial dos Reis das Duas Sicílias. Somente os jardins já valem uma visita ao local, mas se tiver ânimo, pode visitar pelo menos parte do Palácio, que reúne uma das mais importantes coleções de arte do mundo, com obras de El Greco, Goya e Botticelli, para citar apenas alguns.

Se já quiser levar lembranças de viagem, as porcelanas de Capodimonte são famosas em todo o mundo, embora hoje em dia, com a concorrência chinesa, os artesãos que ainda fazem esse tipo de obra de arte são bem poucos. O maço de flores é pequeno, custa pouco e é bem característico!

Encerre o dia num restaurante especializado em frutos do mar, outra especialidade da cozinha local, além, é claro, dos chamados pratos da dieta mediterrânea, tidos como os mais saudáveis no mundo. Descanse bem, pois o dia seguinte vai ser de longas caminhadas.

O segundo dia na Região da Campanha será dedicado prioritariamente a uma visita às escavações da antiga cidade de Pompéia (www.pompei.it/categoria/scavi.htm), cidade que desapareceu do mapa após a erupção do Vesúvio, vulcão ativo até os dias de hoje, embora atualmente esteja adormecido. Foi no ano de 79 da era cristã que a grande erupção aniquilou Pompeia, cobrindo-a por uma camada de cinzas que asfixiou e depois mumificou seus habitantes, cujos corpos foram encontrados exatamente como estavam protegendo-se das cinzas, no dia da grande catástrofe. Além disso, as cinzas também protegeram os fantásticos afrescos das vilas romanas (Pompéia, além de importante porto, era uma cidade de veraneio das classes romanas mais abastadas), bem como teatros, casas de banho (note as rugosidades construídas no teto abalroado dos banhos quentes, feitas para coletar o vapor condensado e recolhe-lho em canaletas subterrâneas, que são um verdadeiro prenúncio dos edifícios verdes).

Pegue um guia na porta do parque. Pode visitar tudo sozinho, apenas com a planta do local, mas com o guia vai poder entrar em algumas casas belíssimas, fechadas para o público normal. Vale à pena o investimento.

Se tiver ânimo, suba até a cratera do vulcão (www.vesuviopark.it), mas já vou avisando que tem que estar com as pernas bem condicionadas, pois além de longo, o percurso é feito num terreno escorregadio, coberto por pedregulhos de lava solidificada. De qualquer forma, vale à pena. A paisagem é lunar, totalmente diferente do que já viu.

O terceiro dia na Campanha deve ser dedicado à ilha de Capri (www.capritourism.com), joia do Mediterrâneo e sede da casa de Veraneio do Imperador Tibério, herdeiro de Augusto e segundo imperador romano. Ainda existem vestígios da sua antiga mansão que, por meio de uma escadaria subterrânea, comunicava-se à piscina particular, que nada mais era do que a famosa Gruta Azul.

Bem, você chega a Capri através dos aliscafos, barcos super-rápidos, que saem de diversos pontos do Golfo de Nápoles, inclusive do próprio porto de Nápoles, ou de Sorrento, outra cidadezinha interessante, primeira da Costa Amalfitana, mas que vai ter que deixar para outra ocasião, a menos que queira sacrificar algum destino mais adiante, do período total de permanência na Itália.

A visita a Capri pode ser feita em menos de um dia e de lá prosseguir para Roma, no final da tarde. Também pode valer à pena uma noite ali e prosseguir a viagem no dia seguinte, já descansado, depois de uma noite bem dormida num bom hotel e um café da manhã de rei. O Villa Marina Capri Hotel (www.villamarinacapri.com) é um dos melhores da ilha.

A ilha em si, que é dividida em Capri e Anacapri (parte mais alta) já é um show. Perca-se caminhando entre suas ruelas, eventualmente visite as escavações da Villa de Tibério, não deixe de passar em frente aos Faraglioni (formações rochosas que lembram um portal) e, naturalmente, não economize uma visita à Gruta Azul (www.youtube.com/watch?v=JcJCh-8FDS4). Confesso que o azul do mar da gruta é igual ao azul do entorno da ilha. De qualquer modo, é uma experiência que não se pode deixar de viver. Melhor se for no final do dia, quando os barqueiros, se bem retribuídos, podem te deixar dar um mergulho no local. Caso contrário, vai entrar, dar uma volta na gruta e sair (e não custa pouco ...).

Ah, já ia me esquecendo: não deixe de tomar um Limoncello, licor de limão típico da região e que pode ser um bom suvenir para os amigos (vendem garrafas com 30ml, que são simpáticas e igualmente boas, como as grandes). Outra boa lembrança local são os perfumes, cujas fragrâncias estão entre as mais antigas do mundo (www.carthusia.it).

Se dormiu em Capri, sua viagem de volta a Roma e quinto dia de permanência na Itália começa depois do café da manhã e, dependendo da hora em que pegar o barco de bolta para a continente, vai chegar em Roma no começo da tarde. Caso tenha preferido retornar a Roma depois de uma rápida visita a Capri, deve ter chegar no seu hotel já noite adentro. Tanto num caso, como no outro, sobretudo porque vai estar de carro (que vai ter ficado em Nápoles, pois ir de carro a Capri é pedir para sofrer), sugiro que permaneça no mesmo hotel da primeira noite. Entretanto, se preferir abolir o carro (vai ficar parado a maior parte do tempo) e fazer os deslocamentos maiores de trem (não é má ideia se conseguir viajar com pouca bagagem, algo 100% recomendável).

Caso esteja sem carro e deseje ficar mais no centro de Roma, sugiro hospedar-se no Hotel Sant’Angelo (www.hotelsa.it) que fica a dois passos da praça Cavour (terminal de vários ônibus que circulam por Roma), a pouca distância do Vaticano e do Castel Sant’Angelo. É bem simples, mas limpo e cômodo para os deslocamentos que terá de fazer nos dias seguintes. Sugiro ficar pelo menos 2 noites ali (ou no Sheraton, hotel da primeira noite em Roma).

Há tanta coisa para ver em Roma que, como dizem alguns amantes da cidade, uma vida apenas não basta. Portanto, vou indicar aqui apenas as coisas principais, que não deve deixar de ver.

Se chegar em Roma no meio do quinto dia e se ficar hospedado no Hotel Sant’Angelo, depois de descarregar as malas, comece sua exploração da cidade caminhando poucos passos até o o Rio Tevere, caminhe em direção ao Castelo Sant’Angelo (originalmente tumba do Imperador Adriano, depois transformado em forte e, atualmente, museu bélico, com armaduras e tudo mais), siga pela via da Conciliazione e prossiga em direção à Basílica de São Pedro que, oficialmente, depois do tratado de Latrão, faz parte do Estado do Vasticano, com selos e passaporte próprios.

Se entrar no Castelo Sant’Angelo pode ser uma bobagem (os anjos ao longo da via representam os anjos que, se não me falha a memória, o Papa Clemente IX teria visto numa certa ocasião), entrar na Basílica de São Pedro é mandatório. É grande, cheia de rococó e tudo mais que você a queira chamar. Talvez por isso mesmo impressione. Note o pé da estátua de bronze de São Pedro como está (os fieis passam a mão para se benzerem e, ao longo dos anos, chegaram a consumir boa parte do bronze). Logo na entrada, depois de passar por uma das portas laterais (a porta central abre somente a cada 100 anos), à sua direita, toda iluminada por flashs de japoneses enlouquecidos, encontrará a primeira grande obra dessa igreja, que é a Pietá di Michelangelo.

As obras de Michelangelo são de ficar com o queixo caído e ali mesmo, no Vaticano, terá a oportunidade de ver duas de suas obras mais famosas (a outra são os afrescos da Capela Sistina, cujo acesso se dá pelo Museu do Vaticano). Note a expressão de dor de Maria, carregando em seu colo seu filho Jesus, apenas deposto da cruz.

Continue caminhando um pouco mais e chegará ao altar principal, protegido por 4 colunas retorcidas, que lembram o templo de Salomão e projetada por Bernini, outro grande nome das artes do renascimento. Se tiver a sorte de pegar a luz do sol descendo pela cúpula, por entre as colunas, vai ver um espetáculo de grande beleza, assim como o vitral que representa o espírito santo, coroando o altar.

Dentro da Basílica há um acesso aos tesouros do Vaticano, com prataria e relicários de todos os tipos. Eu visitei numa das minhas idas à São Pedro e afirmo que não é nada de tão impressionante, a menos que seja apaixonado por arte sacra.

Saindo da Basílica, dependendo da hora, pode dar tempo de fazer uma rápida visita ao Museu do Vaticano. Na verdade, precisaria de um dia inteiro para visitar o museu como se deve, mas como o objetivo aqui é visitar a Capela Sistina e mais alguma coisa (a biblioteca, por exemplo, é bem interessante), um fim de tarde pode ser suficiente, desde que a fila para comprar o ingresso não seja grande demais. O acesso se dá, olhando a Basílica de frente, pela rua lateral direta, margeando o muro do edifício.

Ah, antes que me esqueça novamente, nunca, jamais, programe um dia de visitas que inclua igrejas vestido com bermudas ou regatas, pois não vai entrar. Nem as pernas e nem os ombros podem ficar à vista. Também desaconselho levar bolsas ou mochilas, pois terão que ser deixadas no guarda-volumes, localizado do lado direito da Basílica.

Já está na hora de descansar um pouco para o último programa do dia, que é um jantar no ultra-famoso Il Vero Alfredo (www.alfredo-roma.it), a poucos passos o Hotel Cavour, do outro lado do Rio e bem em frente ao Mausoléu de Augusto. É turístico e um pouquinho caro, mas é o tipo de coisa que a gente não pode se privar, depois de uma viagem tão longa. Atualmente administrado pelos sobrinhos do fundador, Alfredo e Ines, o local está em atividade desde 1950 e faz parte das lojas históricas de excelência de Roma (www.negozistoricieccellenza.it). Dica: reserve!

Se a viagem estiver correndo dentro do previsto, você deverá dedicar seu sexto dia de visita para ver tudo o que for possível da cidade eterna. Saindo do hotel pegue a Ponte Cavour, siga em direção ao Mausoléu de Augusto e dali, pela Via dei Condotti (que é a Oscar Freire de Roma) vá direto para Piazza di Spagna (tem esse nome porque a Embaixada da Espanha ficava num dos edifícios da praça), onde poderá observar a bela Trinitá dei Monti (subindo a escadaria, em frente à fonte do Barco, de Berinini), diante da qual artistas plásticos desconhecidos expõem suas obras a preços muitas vezes convenientes.

Da Trinità dei Monti, desça até a Fontana di Trevi (não se esqueça de jogar uma moedinha de costas para a Fonte, caso deseje voltar a Roma), bela por si só e eternizada nas cenas de La Dolce Vita, com Marcello Mastroiani e Anita Ekberg. Não viu, veja antes de viajar. Também vale como estudo de viagem o filme Elsa Y Fred, um dos meus preferidos de todos os tempos.

Da Fontana di Trevi, siga até o Pantheon, um dos poucos edifícios romanos totalmente intactos, ainda que transformado (ou por causa disso), em templo católico. Do Pantheon, templo não dedicado a uma divindade específica, siga para a Piazza Navona, uma das mais lindas de Roma.

Na Navona, há três edifícios de interesse: a Embaixada Brasileira, considerado um dos palácios mais belos de Roma, a Fonte dos Rios (Fontana dei Fiumi) e a igreja de Sant’Agnese. A Fonte dos Rios, que homenageia os 4 maiores rios até então conhecidos (Danúbio, Ganges, Nilo e Rio da Prata), foi projetada e construída por Berini, já citado anteriormente e arqui-concorrente (para não dizer inimigo) de Borromini, outro grande escultor-arquiteto da época, que projetou e construiu a igreja de Sant’Angnese, localizada bem em frente à fonte. Repare no hindu que representa o Rio Ganges. Ele protege o rosto como se temesse que a igreja fosse desabar em cima dele. Trata-se de uma provocação de Bernini ao seu concorrente Borromini, que não agradou nem um pouco este último.

Estando na Piazza Navona, pare um pouco para relaxar, tomar algo (um gelato, por exemplo, ou uma bebida gelada). De lá, depois de descansar um pouco os pés, pegue a Vittorio Emanuele, depois a Via dei Fori Imperiali e retorne na região do Coliseu, onde também está localizada a Igreja de San Pietro in Vincoli. O edifício tem esse nome pois dizem que a Rainha Helena, mãe de Constantino, imperador romano que tornou o catolicismo religião oficial do Império, ao colocar lado a lado as correntes (vincoli) que um dia aprisionaram São Pedro, elas se uniram diante de seus olhos. Nessa mesma igreja, jaz outra obra fabulosa de Michelangelo.
Trata-se do Moises, que teria sido agredida no joelho pelo seu próprio autor que, momentaneamente enlouquecido diante de sua obra de absoluta perfeição, tê-la-ia golpeado e pedido que falasse.

Se ainda tiver fôlego e tempo, sugiro visitar as demais três Basílicas de Roma: Santa Maria Maggiore (barroca dos pés à cabeça!), San Giovanni in Laterano e San Paolo Fuor Le Mure.

Se tiver que escolher uma entre as três, escolheria a San Giovanni in Laterano, que se encontra nas proximidades da estação central de trens. O edifício é bonito, mas o que interessa mais é o anexo, dentro do qual está a escadaria do Palácio de Pilatos, trazida de Jerusalém para Roma pela Rainha Helena. Dizem que Jesus subiu essa escadaria e que as manchas de sangue marcadas em seus degraus são do Rei dos Reis.

Bem, depois de um jantar, provavelmente na Praça de Santa Maria Trastevere, numa boa pizzaria local e uma noite de sono, sua permanência em Roma terá terminado, a menos que deseje fazer uma viagem menos corrida e empregar mais algum tempo na cidade e região, para ver algo com maior vagar, ou ver mais algo de seu específico interesse.

A viagem agora prossegue até Assis. A viagem não é muito longo. São cerca de 200Km ou duas horas de carro. A cidade não tem a riqueza arquitetônica de Roma e nem o azul do mar do Golfo de Nápoles. É interessante, porém, por ser cidade natal de Francisco, jovem da rica burguesia local e que, segundo a história, em torno do ano de 1200, depois de ouvir uma mensagem falada pelo crucifixo da Igreja de São Damiano, chamando-o para um trabalho maior que os da vida mundana, inclusas as batalhas cruzadas, largou tudo para cuidar dos pobres. Comprou briga feia com seu pai, um rico comerciante de tecidos, mas ficou para a história como um dos maiores santos da Igreja Católica.

Tudo em Assis gira em torno de São Francisco e também de Santa Clara, jovem de incrível beleza e que resolveu largar tudo e seguir os ensinamentos de Francisco e, mais adiante, criou sua própria ordem, a das clarissas.

Um dos pontos altos da cidade é a Basílica de São Francisco, toda decorada com afrescos de Giotto, cujas obras, para se ter uma ideia, inspiraram de Leonardo a Michelangelo. Infelizmente, boa parte de seus afrescos foram destruídos num grande terremoto que abalou a cidade há alguns anos atrás. Muito, porém, foi restaurado por hábeis mãos, que pacientemente juntaram caco por caco, como num quebra-cabeças.

Também são imperdíveis a Igreja de Santa Clara, a casa de Francisco e, por último, a Porciuncula (http://it.wikipedia.org/wiki/Porziuncola), uma capela em volta da qual foi construída uma imensa Catedral. Fica na parte baixa da cidade, é da época de Francisco e local onde teria morrido. Simplesmente fantástica.

Vale á pena passar uma noite em Assis que, com as luzes das lojas apagadas e com uma iluminação muito suave, faz o visitante retornar no tempo. Uma boa opção de hospedagem (na verdade, a melhor) é o Num Assisi Relais & Spa (www.nunassisi.com), cuja noite sai por cerca de 200 euros para o casal. Com certeza, vai ser uma daquelas hospedagens inesquecíveis.

Se tiver fôlego para prosseguir no dia seguinte, junte as malas e vá para San Marino. Todavia, recomendo duas noites no local, para conhecer não só a parte histórica, mas também os campos da Umbria, suas fazendas e restaurantes.

Se aceitou meu conselho de ficar duas noites em Assis e explorar seus arredores, estará entrando hoje no seu nono dia de permanência na Itália que, como disse anteriormente, deverá ser usado para a viagem à San Marino. São mais cerca de 200 Km de estrada, que valem à pena investir.

San Marino, que oficialmente se chama Sereníssima República de San Marino, com 61Km² é dos menores estados independentes do mundo. É também a mais antiga república do mundo, fundada no ano de 301. Sua constituição promulgada em 1600, também é a mais antiga do mundo. Sua principal atração, na minha opinião, é a Roca Guaita, uma fortaleza cujas fundações dão do décimo século. Vale à pena uma noite ali e um dos melhores hotéis da região é o Grand Hotel Primavera (www.grandhotelprimavera.com), situado a apenas 3,5Km do centro histórico.

Já descansou? Agora faça as malas novamente e siga mais 200Km de estrada até Florença, onde deve ficar 3 noites para conhecer a cidade e o entorno.

A oferta de hospedagem é bem ampla, mas indico o Bernini Palace Hotel (http://berninipalace.hotelinfirenze.com), que fica bem em frente ao Palazzo Vecchio, a dois passos do Piazza della Signoria, da Ponte Vecchio, da Accademia, da Galleria degli Uffizi e do Duomo, que são as principais atrações da cidade.

Só o edifício onde está localizado o Bernini já é uma viagem. O edifício é uma antiga residência fidalga, hoje transformada num hotel 4 estrelas, com conforto de 5 e preços razoáveis. Se achar caro demais, vá para o Baglioni, tradicional hotel de Florença, um pouco mais em conta (se ficar nos apartamentos piores, é claro) e em cujo terraço fica um delicioso restaurante com vista para toda a cidade.

Aproveite que vai ficar 3 noites em Florença e tire a tarde do primeiro dia, depois de fazer o check-in no hotel, para caminhar pela cidade. Vai conseguir um mapa da cidade na recepção do hotel (isso também vale para as outras cidades). Passe pela Ponte Vecchio (http://en.wikipedia.org/wiki/Ponte_Vecchio), que desde épocas medievais reúne alguns dos principais joalheiros da cidade, visite o Duomo (http://en.wikipedia.org/wiki/Florence_Cathedral), edifício de grande beleza, concluído em torno do ano de 1436 e em cujo batistério são realizados espetáculos de musica clássica todas as noites. Aliás, esse é outro programa imperdível.

Nos dias seguintes, no horário que você achar mais conveniente (melhor sempre logo na abertura, para evitar filas, ou em qualquer horário, desde que compre o ingresso com antecedência), visite a Galleria degli Uffizi e a Accademia (www.florence-museum.com/?gclid=CP-cx6j8u7QCFQGvnQodg1YATg). Se no primeiro você vai ter a chande de ver uma Madonna de Michelangelo e a Anunciação de Leonardo Da Vinci (além de outras obras do gênio multifacetado), na segunda você verá o original do David, de Michelangelo, outra obra prima do mestre florentino.

Ao longo da permanência em Florença, tire um meio dia para visitar Pisa, que se encontra a poucos quilômetros de distância e onde fica a célebre torre inclinada, de onde Galileu fazia seus experimentos. A Igreja e o batistério, que fazem parte do conjunto arquitetônico, também são dignos de apreciação (www.opapisa.it/it/la-piazza-dei-miracoli/torre-pendente/larchitettura.html).

Outro passeio que vale à pena na região é a cidade de Vinci (www.toscanaviva.com/Vinci), onde ainda pode ser visitada a casa onde nasceu Leonardo. O Caminho até lá passa por campos de oliveira de grande beleza e inspiração.

Antes de prosseguir para o Vêneto, região italiana cuja capital é Veneza, te deixo dois dias livre e, portanto, os dias décimo terceiro e décimo quarto da viagem para incluir algo no programa, como uma rápida passagem a Lucca, a San Geminiano e Volterra, todas na Toscana.

Seu décimo quinto dia, segundo minha sugestão, deve ser usado para chegar a Verona (230Km), com rápida passagem por Modena (150Km), onde poderá visitar o Museu da Ferrari, com direito a umas voltinhas numa das versões do possante vermelho na pista de Fiorano (http://museo.ferrari.com/it).

Como já está chegando ao final da viagem, sugiro dormir apenas uma noite em Verona e um hotel bastante agradável e de preço acessível é o Best Western Hotel Firenze (http://book.bestwestern.it/EN/hotel_in_Verona_98068.aspx), que fica no Corso de Porta Nuova, a poucos metros do centro antigo de Verona.

E o que fazer em Verona, a cidade dos amantes, terra de Romeu e Julieta? Bem, na verdade, Romeu e Julieta viveram em Verona somente na versão da história escrita por Shakespeare, pois as verdadeiras famílias Montecchio e Capuleto viviam não muito longe dali, na cidade de Montecchio Maggiore.

É em Verona, porém, que a história foi eternizada e, caminhando pelo Corso di Porta Nuova, logo depois de passar pelo arco que dá na Piazza Bra, a praça onde fica a arena romana, vire e encontrará no lado direito do arco, numa placa gravada em mármore, um trecho do romance do célebre autor inglês, que mais ou menos diz o seguinte: Não existe vida fora dos muros de Verona, mas purgatório, tortura e o próprio inferno.

De fato, ao ingressar na Piazza Bra, o visitante é levado para um outro mundo e o primeiro impacto é a amplidão da praça coroada pela grande arena. Trata-se de uma das arenas de época romana mais bem conservadas do mundo e palco de grandes espetáculos de música lírica no verão europeu. Aliás, é impossível pensar na encenação da Aida, de Verdi, que não seja na Arena de Verona. Essa sim, ao contrário do Coliseu, vale à pena ter seu interior visitado, pois não sofreu as depredações que o Coliseu sofreu.

Abro aqui um parênteses para falar do Coliseu novamente: tem esse nome, pois no lugar em que foi construído, após o grande incêndio que tomou conta de Roma no início do era cristã, Nero fez erguer uma estátua em homenagem a ele mesmo, que ficou para a história como Colosso de Nero. Claro que, depois que o imperador morreu, foi tudo para o chão, assim como a sua Domus Aurea, cujas fundações é possível visitar.

Tornando a Verona, após visitar a Arena, pegue a Via Mazzini, que é a Oscar Freire da cidade, e siga-a até o final. Vai desembocar numa rua, com a possibilidade de virar à esquerda, ou à direita. Se for à direita, vai acabar passando em frente da Casa di Giulietta. É coisa para turista ver e apaixonados deixarem suas mensagens gravadas nos muros do edifício, de época medieval. No pátio interno, verá uma estátua de bronze da Julieta e se notar bem, verá que um dos seios é mais brilhante do que o outro. Isso porque dizem que dá sorte passar a mão no peito da Julieta!

Se quiser entrar na casa, pode valer à pena para ver como é uma residência medieval. Vou avisando, porém, que não tem nada dentro. Simplesmente subirá até o balcão de onde Julieta declarou seu amor a Romeu e vice-versa (Ah, Romeu, meu Romeu, diga que me amas e não serei mais Capuleto e nem tu Montecchio, mas apenas Julieta e tu Romeu, meu Romeu).

Bem, voltando para o lado esquerdo da rua da Casa di Giulietta, se seguir até o final, chegará à Piazza delle Erbe. Trata-se do local mais antigo de Verona e onde se localizava o Fórum Romano. Com o tempo os edifícios romanos deram lugar àqueles medievais. O local abriga uma feira livre de ervas, artesanatos e suvenires e também um fonte, construída em 1300 pelo último descendente da família que dominava a cidade e que dá nome a vários edifícios locais, como o castelo e anexa ponte. A estátua tem o corpo de uma estátua romana, que provavelmente decorava os edifícios romanos locais, mas a cabeça e os braços, então faltantes, são de 1300. De certa forma, simboliza a cidade, que também possui bases romanas e seu esplendor construído na época medieval.

Da Piazza delle Erbe, siga em direção ao rio (chama-se Adige) que, sem muito esforço, encontrará a Ponte Romana (pode imaginar uma ponte que ainda é usada depois de 2 mil anos?) e, do outro lado, o anfiteatro romano.

O anfiteatro ainda é usado para espetáculos durante o verão, particularmente de balé. Possui acústica perfeita e uma vista espetacular da cidade. Aliás, perder um pouco de tempo observando as águas do Adige passarem por debaixo da Ponte Pietra (ponte romana) é algo que fica marcado na memória.

Depois desse passeio, volte para o hotel, descanse um pouco e saia para jantar. Eu recomendo a Trattoria Tre Marchetti (www.tremarchetti.it), que fica a dois passos da arena. O local é agradável e, durante a temporada de musica lírica, recebe personagens de grande fama, como José Carrera ou Placido Domingos. Lembre-se de reservar antes para não encontrar o salão lotado.

Depois de um belo jantar, regado a um bom vinho, nada melhor que uma caminhada para fazer digestão. Nesse caso, volte à Piazza Bra e, antes de cruzar o arco em direção ao hotel, vire na rua à direita. Siga essa rua até o final e cairá em frente ao Castel Vecchio, antiga residência scaligera. Atravesse a rua em direção ao Castelo caminhe um pouco à esquerda e cruze a ponte. A luz alaranjada e o silêncio da noite (pode ficar sossegado, que o risco de ser assaltado é mínimo!) farão você retornar no tempo.

Se o programa em Verona rendeu bem, você deverá estar deixando a cidade pouco antes da hora do almoço, depois de um régio café. Caso negativo, estenda sua permanência um pouquinho mais para ver tudo o que foi indicado nos parágrafos anteriores. Não vai ser por causa de algumas horas que você vai deixar de ver edifícios e paisagens que dificilmente voltará para visitar.

Deixando Verona, siga em direção a Veneza, mas com tempo suficiente para uma paradinha técnica em Vicenza (www.vicenza.com/temi/conosci_vicenza/monumenti/index.php). Vai passar por ela de qualquer modo, pois a estrada que liga Verona a Venza (A4) passa por Vicenza, cidade que deve muitos de seus edifícios a um gênio da arquitetura dos anos 1500, Andrea Palladio. Entre suas obras mais significativas, coloco a Rotonda, casa com as quatro fachadas iguais e que serviu de inspiração para o projeto da Casa Branca, e o Teatro Olímpico, localizado no centro da cidade e cuja visão fica eternamente marcada na memória.

Se tudo estiver dentro do planejado, você estará chegando a Veneza na noite do 16° dia de permanência na Itália e não terá tempo de fazer nada além de dar entrada no hotel, comer algo e dormir um pouco.

Eu sugiro ficar hospedado no Hotel Firenze (www.hotel-firenze.com), que fica realmente a dois passos da Piazza San Marco e tem um preço bem em conta. É simplesinho, mas suficiente. Claro que, se preferir algo faustoso, o Danieli (www.danielihotelvenice.com), onde ficam hospedados de Bill Clinton a Brad Pitt, é um sério candidato. Nesse caso, prepare o bolso, pois vai gastar um bocado. Em qualquer caso, se estiver de carro, vai ter que deixá-lo num estacionamento, pois em Veneza, para se locomover deve usar os pés, ou um barco (ou gôndola). Prepare-se para ficar na cidade pelo menos 2 noites.

Use essa primeira noite em Veneza para, como nas outras cidades, se perder (literalmente), por suas ruelas. Pare em alguma osteria, ou trattoria que te agradar e como algo. Existem menus turísticos, com entrada, prato principal, segundo prato e sobremesa com valores bem em conta e nem por isso deixam de ser bons.

Depois do jantar, noite adentro, caminhe pela praça San Marco e deixe-se envolver pela atmosfera do local que, a certa hora fica encoberta pela bruma que vem do mar, iluminada por lampiões de longa data e com o silêncio rompido apenas por seus passos sobre as pedras do calçamento. EU considero essa praça, sobretudo à noite, um dos lugares mais bonitos do mundo.

O décimo sétimo dia vai ser intenso e começa por uma visita à Igreja de São Marcos (www.basilicasanmarco.it). Note os cavalos que estão colocados no alto da porta principal. São réplicas de originais que pode ver dentro, na sala do tesouro. Os originais foram trazidos de Istambul, onde decoravam o hipódromo. Os responsáveis por isso foram os cruzados que vendo as estátuas de bronze brilhando, tomaram-nas como sendo de ouro e as levaram como espólio de guerra.

A igreja é belíssima, adornada com o que há de melhor na arte bizantina. Note a riqueza dos mosaicos e, se tiver afim de visitar a sala do tesouro, fique com a boca aberta ao se deparar com a Pala D’Oro, uma espetacular obra sacra, colocada imediatamente atrás do altar da igreja e feita em ouro, prata e pedras preciosas. Claro que para ver isso, tem que pagar (o ingresso à igreja é gratuito, naturalmente).

Saindo da igreja, o próximo programa é uma visita ao Palácio Ducal, ou Palácio dos Doges (http://palazzoducale.visitmuve.it), antigos administradores da República Marítima de Veneza. O ingresso, que também dá direito a visitar o Palácio Real, que se encontra do outro lado da praça, dá acesso a um conjunto de salas ricamente adornadas com pinturas do mestre veneziano Tintoretto, mas também à famosa Ponte dos Suspiros, que leva esse nome, pois é dava aos condenados a chance de ver pela última vez a luz do sol, já que imediatamente depois vêm as masmorras, de onde o cidadão saía somente morto.

Um belo material de estudos para conhecer Veneza é a mini série encenada por Ken Marshall e que fala sobre a vida de Marco Polo.

Outro programa imperdível em Veneza é um passeio pelo Canal Grande, o que pode ser feito num dos vaporeto, espécie de balsa-ônibus local. Nesse canal, encontram-se algumas das mais belas residências do cidade, hoje, praticamente todas transformadas em museus ou locais da pública administração (alguns ainda permanecem nas mãos de famílias nobres). Pare na Ponte Rialto e caminhe por ela. Vai notar alguma semelhança com a Ponte Vecchio, de Florença.

Para o programa da noite, aqui vai uma opção que deve agradar: concerto na Scuola Grande San Rocco (www.scuolagrandesanrocco.it), outro edifício decorado com obras do grande Tintoretto, seguido de jantar no Restaurante La Fenice (www.ristorantelafenice.it), localizado ao lado da Opera La Fenice (se preferir, pode assistir a um espetáculo na Opera).

Conheci esses locais por acaso. Enquanto caminhava com dois amigos, ouvi a música vinda de um edifício renascentista e resolvi entrar. Fui brindado com um inesquecível espetáculo, num ambiente decorado por telas do mestre veneziano, ao som de músicas de Vivaldi, outro talento local, tocadas por um quarteto que até cravo original da época tinha. Como o Restaurante fica ao lado, acabei entrando com esses amigos e terminei a noite com outra bela surpresa.

Outra boa opção de restaurante, mas com preços muito, mas muito mais altos é o Harry’s Bar (www.cipriani.com), que fica nos arredores da San Marco. Vale á pena a experiência ...

No décimo oitavo dia, já no final da viagem, pegue o carro e suba a montanha, sempre pela A4, até Misurina (http://en.wikipedia.org/wiki/Lake_Misurina). Com o lago congelado ou não, o local é de ficar com o queixo caído. Passe a noite ali e empregue o dia caminhando pelas dolomitas. Para se hospedar, a melhor opção, pela localização na beira do lago, é o Grand Hotel Misurina (www.grandhotelmisurina.it).

No seu décimo nono dia, não tem jeito, tem que pegar o carro e seguir direto para Milão. São quase cinco horas de estrada, que podem ser interrompidas por uma parada estratégica em Sirmione (www.sirmione.com/english.htm), cidade à beira do Lago de Garda e que Maria Callas escolheu para viver seus últimos dias. Para por lá, como algo, estique as pernas e prossiga para chegar em Milão antes da noite chegar.

E onde ficar em Milão? Bem, eu recomendo o Hotel Palazzo Stelline (www.hotelpalazzostelline.it/it/index.htm), localizado num antigo orfanato para meninas, carinhosamente chamadas de estrelinhas. O preço é bom e a localização é boa caso deseje se desfazer do carro e de lá seguir de trem (Estação Milano Cadorna) até o aeroporto de Malpensa, de onde provavelmente pegará o vôo de retorno para o Brasil (compre o bilhete com antecedência pelo site www.malpensaexpress.it). Além do mais, fica bem em frente à Igreja de Santa Maria delle Grazie, em cujo refeitório fica a famosa Última Ceia, de Leonardo a Vinci. Para visitá-la, independentemente de estar perto, ou não, reserve os ingressos com antecedência, pois só um pequeno número de pessoas pode acessar o local a cada dia (www.tickitaly.com/galleries/davinci-last-supper.php).

Além da Última Ceia, pintada por Leonardo na sua longa permanência em Milão, sob a proteção do Duque Ludovico Sforza, são obrigatórias visitas ao Duomo, ao Castello Sforza (ou Sforzesco) e à Galleria Vittorio Emanuele, aquele que disse ser muito semelhante à de Nápoles.

O Duomo (www.duomomilano.it), ou catedral, é um dos exemplos máximos da arquitetura gótica, comparável somente à Notre Dame de Paris, ou a Catedral de Chatres. Começou a ser construído em torno do ano de 1300 e, aos longo dos séculos, passou por diversas modificações até chegar à estrutura atual. Se desejar, pode subir até seu telhado, de onde tem uma vista privilegiada da Madonnina (Nossa Senhora de Milão) e de toda a cidade.

Quanto as Castello Sforzesco (www.milanocastello.it/ita/home.html), tão antigo quanto o Duomo, já serviu de morada para as diversas famílias que dominaram Milão e até mesmo como caserna, durante o período napoleônico. Durante a segunda guerra foi seriamente abalado e as autoridades pensaram seriamente em demoli-lo completamente. Entretanto, optaram pela restauração que, entretanto, eliminou algumas características de uma fortaleza, trazendo mais praticidade e aproximando-o mais de um castelo de contos de fada.

Se não errei nas contas, a essa altura você já está de malas prontas para retornar ao Brasil. Entretanto, caso ainda tenha mais uma noite em Milão, vá jantar no meu restaurante preferido, que é o Bice (www.bicemilano.it). Vale sempre a mesma dica de qualquer outro restaurante, ou seja, que deve reservar com antecedência.

Outra opção de local, mas muito mais caro, é o Boeucc (www.boeucc.it/boeucc), que figura entre os restaurantes mais antigos do mundo ainda em atividade.

Num caso ou n’outro, aproveite, depois do jantar, para caminhar pela Monte Napoleone, Santo Spirito e Sant’Andrea, cujas vitrines são inspiradoras, mas totalmente seguras àquela hora para quem não queira gastar com produtos de algumas das principais grifes italianas.

Chegamos ao ponto final desta história. Espero que meu roteiro te ajude a fazer uma boa viagem!

domingo, 26 de agosto de 2012

PEREGRINANDO PELA TERRA SANTA

Já circundei o pré-histórico monumento de Stonehenge, caminhei por entre as pirâmides de Gizé, visitei a antiga cidade portuária de Efésios, adentrei no Parthenon e no Coliseu, admirei os detalhes dos barcos vickings em Oslo e deixei-me levar pela imaginação nas ruas de Pompéia. Em todas essas ocasiões e em diversas outras de uma extensa lista de contatos com vestígios de antigas civilizações, nunca fui tocado como em minha visita a Jerusalém, onde não precisei me esforçar para imaginar como seus antigos habitantes viviam, já que tudo ali, pelo menos na cidade antiga, parece quase não ter sofrido alterações, no mínimo, desde a época dos cruzados.

Não é uma cidade morta, um museu a céu aberto, com edifícios estonteantes que desafiam a imaginação a compreender como ou por qual razão foram colocados em pé, ou ainda porque foram abandonados. A vida por ali ainda pulsa não apenas em suas construções seculares, testemunhas da fé da humanidade, mas, sobretudo, nas pessoas que por ali habitam, que por ali transitam em busca de Deus ou de si mesmas.
Visitar Jerusalém é romper a fronteira do tempo e dos costumes, é misturar passado e presente, ocidente e oriente, espiritual e mundano.

Vasculhando minhas memórias para escrever este texto, sou bombardeado de informações, de impressões e até mesmo odores marcantes. Fecho os olhos e me vejo vagando por aquelas ruelas estreitas, em meio aos souks (emaranhado de ruas comerciais), observando o vai-vem de pessoas e escutando seu vozerio indecifrável que parece querer se impregnar nas paredes, como os pedidos deixados por entre as frestas das rochas que compõem o Muro das Lamentações.

Ao atravessar os limites do Portão de Damasco, um dos oito acessos à cidade antiga de Jerusalém e construído em 1542 por ordem de Solimão, o Magnífico, sou transportado para um mundo que parece existir somente na imaginação de algum cineasta de Hollywood, ou para algum dos contos das mil e uma noites, devidamente repaginado, com elementos do quotidiano atual, como celulares e brinquedos feitos na China, que destoariam na paisagem, caso não se perdessem no turbilhão de sensações que os sentidos humanos não são capazes de captar.

Confesso que meu primeiro impacto, após rapidamente observar a imensa construção otomana, não foi dos mais positivos. Não que a construção em si não me tenha agradado. Muito pelo contrário. Possui traços mouriscos muito característicos e uma imponente porta de madeira, hoje constantemente escancarada, uma vez que o perigo de invasão já não existe mais (quando muito, a invasão é de turistas e peregrinos de todo o mundo). Foi o que vi logo depois que me causou certo desconforto.

Guiado por uma senhora francesa que havia conhecido no taxi coletivo (vulgo van) que nos trouxe do aeroporto Ben Gurion até Jerusalém, quanto mais adentrava a cidade, na pressa de chegar no hotel e me livrar do peso das malas (apesar de ter aprendido a viajar com o mínimo indispensável, no sobre e desce de ladeiras, esse indispensável também pesa), mais me questionava sobre ter viajado tanto para me enfiar num local que, num primeiro momento, parecia-me um misto dos tradicionais pontos de comércio popular de São Paulo e do Rio de Janeiro, a 25 de Março e o Saara, ou seja, nada que justificasse uma viagem tão longa.

Cheguei a escrever nas minhas anotações que aquilo que via só podia ser reflexo da expulsão dos vendilhões do templo que, conseqüentemente, haviam se espalhado pela cidade, ou pelo menos por aquele canto! Eram lojas de todos os tipos, misturadas sem o mínimo nexo, de joalherias a açougues, passando pelo comércio de roupas, de especiarias, de todo tipo de alimentos e de lembrancinhas para turistas, das mais baratas e legitimamente falsas, às mais caras e genuinamente (?) verdadeiras. Também havia os vendedores ambulantes, com produtos espalhados pelo chão e que, em certos momentos, atrapalhavam a passagem. Tudo unido e isolado, como numa colcha de retalhos, de tons variados e, em alguns casos, de gosto duvidoso.

Uma análise mais atenta, porém, me fez mudar de idéia e apreciar cada vez mais aquele universo que, embora não muito grande (a cidade antiga tem não mais que 1 Km²), possui uma diversidade étnica e cultural dificilmente encontrada em outras localidades. Aliás, observar aquele vai-e-vem de pessoas de variados biótipos, já é uma viagem. São muçulmanos, judeus e católicos de todos os tipos e todas as partes do mundo, que vivem ou se dirigem a Jerusalém para visitar alguns dos locais mais sagrados para as principais religiões do planeta.

Bem, o hotel onde eu me hospedei (Hashimi Hotel) estava localizado no bairro muçulmano, num palácio construído em 1740, a dois passos da Via Dolorosa e com um terraço com vista para a Cúpula da Rocha. Essa, pelo menos, é a descrição que encontrei no E-booking e, como eu não tinha muitas opções, já que outubro é um mês de altíssima temporada em Israel, por conta de festas judaicas de grande importância, bem como do clima, que é agradável para longas caminhadas, resolvi ficar por lá, na certeza de estar fazendo um grande negócio: prédio histórico, recém restaurado, de fácil acesso aos pontos que tinha programado para minha rápida visita à cidade e a um bom preço (US$ 100 por noite).

Claro que onde há fumaça há fogo e, se o hotel fosse tudo o que o site descreve, custaria tanto quanto o King David, hotel mais luxuoso da cidade, com apartamentos a partir de U$ 500 (confesso que até tentei ficar lá, ou no YMCM, igualmente famoso e do outro lado da rua, nas imediações da Porta de Jaffa, mas de um lado porque se encontram fora dos muros da cidade velha e de outro porque deixei para fazer a reserva muito tarde, encontrei-os lotados e acabei forçosamente abortando a idéia).

Quando cheguei na frente do hotel, depois de dar uma parada numa vendinha para me certificar onde ficava, já que minha guia francesa havia me deixado no início da rua, de onde ela seguiu seu caminho, olhei bem para a porta de ingresso e lembrei daquela música da Neuzinha Brizola: ... a cobertura era uma kitchenet e a festa era mitchura ...

Nem tudo era mentira ou exagero. O hotel realmente estava instalado num edifício com quase 300 anos, todo restaurado (segundo os padrões locais) e a pouca distância da Via Dolorosa, que eu decidi visitar logo após deixar minhas malas no hotel. O problema é que o quarto, para 4 pessoas (resolvi o problema alugando todas as vagas, trancando a porta a chave e levando-a comigo para onde quer que fosse!) era um tanto quanto espartano e sem nível de comparação com o King David, ou mesmo com as hospedarias para peregrinos, onde também tentei ficar e também encontrei igualmente lotadas. Não podia me queixar, porém, da limpeza e, quanto ao terraço, de fato tinha uma boa vista para a Cúpula da Rocha, mas como em outubro faz um certo friozinho (embora tenha tido sorte e pego dias de sol), o terraço estava fechado e pude usufruir da vista somente da porta de vidro para dentro. Depois, a rua do hotel não é das mais simpáticas para um ocidental, não pelo menos até cair de cabeça na cultura oriental, já que fica no coração de um souk.

Passado o susto com o quarto e o hotel em si, que depois passei a achar suficiente (embora não fosse um 5 estrelas), saí pelo souk, no que deveria ser um passeio de reconhecimento, de modo a planejar a visita do dia seguinte. Entretanto, após caminhar 2 minutos, já estava na Via Dolorosa e, levado pelos peregrinos, acabei fazendo boa parte das 12 estações, que compreendem algumas passagens da imolação de Jesus após ter sido condenado culpado pelo Sinédrio.

Ao seguir esses grupos, em particular um de japoneses, acabei entrando em locais que, somente no dia seguinte, fazendo rapidamente o mesmo trajeto, percebi serem propriedades privadas, abertas ao público somente mediante pagamento de ingresso (bastante justo, visto que em diversas situações encontram-se nos subterrâneos de casas habitadas). Como estava com os peregrinos, passei por componente do grupo (ninguém se deu conta que não sou japonês ou acharam que era guia!) e fiquei ali observando a demonstração de fé de seus elementos. Chegava a ser comovente vê-los ingressar nos locais por onde Jesus passou, cantar uma oração e seguir para a estação seguinte. Tudo muito rápido, mas muito intenso e extremamente verdadeiro.

Durante as várias reflexões que tive, cheguei a invejar esses verdadeiros peregrinos pela fé incondicional que demonstravam e que eu nem de longe sentia. Até tentava me emocionar como eles ao passar pelos locais onde Jesus sofreu até ser crucificado. Entretanto, meu lado racional, cartesiano, não me permitia esse tipo de emoção, até pelo menos seguir um fluxo de judeus, que vinham de todas as partes e, como passageiros do metrô em horário de pico, subiam apressados as colinas da cidade nova até passar pela Porta de Jaffa e se perderem nas vielas da cidade antiga.

Tinha atravessado a Porta de Jaffa, após concluir o circuito pela Via Dolorosa. Havia parado por lá para tomar um copo de suco de romã, vendido aos turistas e demais transeuntes pela módica quantia de 10 shekels (algo em torno de R$ 26!). É caro, eu seu, mas não pude resistir a esse sabor pitoresco, meio doce, meio com gosto de terra, que tantos paravam para provar. Foi aí que notei o fluxo incessante de judeus cidade adentro, numa pressa tão grande, que nem o Coelho Maluco da Alice no País das Maravilhas parece ter experimentado.

Curioso que sou, terminei meu copo de suco, que devem ter tingido meus dentes de um tom violeta, para disfarçadamente, um pouco como o Agente 86 e um pouco como Mister Bin, seguir aquela multidão que, se tivesse sido tirada de um filme de Indiana Jones, certamente estaria indo para algum sacrifício, ou ritual.

Independentemente da razão que os levava para o mesmo lugar, segui o fluxo que, meio sem tomar conhecimento, quase que inconscientemente, embora demonstrando uma alegria típica de dia de festa, e das boas, passou pelo bairros católico e armênio para chegar ao bairro judeu, até desembocar numa esplanada completamente iluminada, tendo ao fundo o Muro das Lamentações, encimado pela Cúpula da Rocha. Tudo isso emoldurado pelos últimos raios de sol, que deixavam o céu num tom de azul cinzento.

O Muro das Lamentações é o que sobrou do Grade Templo, que está para o judaísmo como a Basílica de São Pedro está para o catolicismo, ou Meca está para o islamismo. Foi construído após o retorno do cativeiro na Babilônia, em torno do ano 539 a.C., no mesmo local onde Salomão havia construído o primeiro Grande Templo, e destruído completamente no ano 70, pelos romanos.

É difícil descrever a emoção que senti ao me encontrar diante daquele que é o local mais sagrado para os judeus e que, segundo uma inscrição colocada em suas proximidades, é um lugar onde a divindade está sempre presente. O que sei é que, depois de passar pelo detector de metais – muito comum hoje em dia em locais de grande concentração de pessoas e ícones para um país – e me vi em meio a uma multidão de homens e mulheres que cantavam, dançavam e oravam numa bela festa, o Sucot (lê-se sukô) que comemora os 40 anos de peregrinação dos judeus pelo deserto até encontrarem a terra prometida, mal contive as lágrimas.

Fiquei por ali cerca de uma hora caminhando de um lado para o outro e, por vezes, simplesmente parava para observar a alegria daquela gente de todas as idades, dos mais liberais aos ortodoxos. Pude notar que homem e mulheres, pelo menos nas imediações do Muro, ocupavam seções separadas, sendo a masculina muito maior. Pensei em adentrar na seção masculina, chegar perto do muro, fazer uma oração e deixar um pedido nas suas frestas, mas um pouco pela multidão e um pouco por não ser judeu, achei que não tinha o direito de invadir a fé deles. Aliás, uma placa colocada em local bem visível, dirigida a turistas, recomendava que a aquele momento de festa, mas também de religiosidade, fosse resguardado das ações inoportunas e, de algum modo, desrespeitosas.

Já meio cansado, embora fosse apenas pouco mais de seis da tarde, segui novamente o fluxo de judeus, que então deixavam aquele local, para também seguir meu rumo ao hotel. Ocorre que, no meio do caminho, vendo-me novamente nas imediações da Via Dolorosa, resolvi buscar pela Basílica do Santo Sepulcro, um dos pontos mais sagrados para católicos de todos os tipos. Digo isso, pois as ordens religiosas cristãs que povoam a Terra Santa são inúmeras e incluem os católicos apostólicos romanos, mas também os ortodoxos, os armênios e os etíopes, além da ordem dos franciscanos, das carmelitas e de mais alguma que me tenha passado desapercebida.

Não a achei com facilidade, pois perder-se entre aquelas ruelas, que passam longe de qualquer plano urbanístico, é mais fácil que andar para frente e já acreditando que essa minha visita ficaria para as quatro da manhã do dia seguinte (queria chegar cedo para não ter que disputar espaço com os inúmeros turistas e peregrinos), acabei encontrando-a e, meio surpreso com sua linha arquitetônica, que não segue o padrão de uma igreja – normalmente construída em forma de cruz – adentrei em seu ambiente, muito amplo, com linhas características da época dos cruzados e evidente influência ortodoxa na iluminação, realizada por lamparinas de vidro colorido, suspensas por correntes de bronze.

A Basílica, na verdade, é um conglomerado de capelas de várias épocas. A porta principal, por exemplo, é do século XII. Já a pedra colocada sobre o local onde Cristo teria sido deitado ao ser retirado da cruz é de 1700. Não deu para ver tudo com calma, pois cheguei cerca de 30 minutos antes da igreja ser fechada. De qualquer modo, pude caminhar por cada um dos ambientes, parar, observar, mergulhar no silêncio, orar ... e comer uma rosquinha que havia comprado um pouco antes de entrar na igreja (nada de particular, mas tinha fome e queria provar a culinária da região, pelo preço módico de 10 shekels, valor que daria para ter comprado um pacote inteiro, mas que resolvi aceitar, pois os meninos que as vendiam pareciam estar precisando desse dinheiro mais do que eu).

Queria ter sentido dentro da Basílica do Santo Sepulcro a mesma emoção que senti diante do Muro das Lamentações. Afinal, tinha sido ali mesmo, dois mil anos antes, que Jesus tinha sido crucificado e sepultado. Entretanto, aquele lugar não me provocou nada, ou melhor, quase nada. Na verdade, senti profundo respeito por uma senhora que vi logo ao adentrar no recinto, ajoelhada diante da pedra colocada no local onde Jesus teria sido untado com óleos aromáticos antes de ser sepultado. Ela orava com profundo fervor, come se visse diante dela o corpo de Jesus, deitado sobre aquela pedra, que ela acariciava com ternura, lentamente, empunhando um lenço que acreditava estar benzendo, de maneira a levar consigo um pouco da paz que aquele lugar lhe trazia. Quem sabe qual força que movia sua fé, ou qual o provável problema que a afligia. Parecia uma das Três Marias ao pé da cruz.

Bem, após essa cena logo na entrada, eu adentrei à igreja e, embora pensasse que a fosse encontrar lotada, não vi viva alma. Nenhum barulho além dos meus passos, que ressoavam por aqueles corredores de pedra, levando-me quase que inconscientemente até uma capela construída sobre o Calvário, ou, em aramaico, Gólgota, local onde teria sido fincada a cruz que levou Jesus desse mundo. E eu fiquei lá por uns bons minutos, sentado no degrau da escadaria que levava à capela, olhando para o local sagrado, até ser chamado por um vigia, avisando que estava na hora de fechar o local.

Saí correndo, olhando rapidamente o local do Santo Sepulcro, na certeza de poder retornar ao local com mais calma no dia seguinte, o que jamais aconteceu, pois o destino acabou me levando para outro lugar. Saí e, antes de voltar para o hotel, fiquei sentado na praça, observando as portas do templo serem serradas por uma das ordens religiosas guardiãs do local. São bem democráticos: uma abre e outra fecha aquela porta baixinha, que faz a gente se encurvar para entrar, parecendo nos obrigar a uma reverência, mas que, na verdade, tem aquela altura para evitar que entrassem a cavalo, algo bastante provável na época dos cruzados.

Não me lembro que horas eram. Provavelmente pouco mais de seis da tarde. A noite, porém, já era profunda e, então, relutante, resolvi voltar para o hotel, onde recebi a ligação de uma amiga de Tel Aviv, que havia conhecido um ano antes e com a qual combinei de me encontrar no dia seguinte.

E o segundo dia na Terra Santa começou cedo e foi tão ou mais rico de informações que o primeiro. Começou com um típico café da manhã local, especialmente bem vindo, sobretudo depois de uma noite sem jantar (quem disse que arrumar um bom restaurante, à noite e dentro dos muros da velha Jerusalém é fácil?). Lembro-me de ter comido queijo, pão árabe (que eu adoro), manteiga e frutas locais. Pratos, copos e talheres eram de plástico e os guardanapos tão finos que furavam só de olhar para eles, mas a comida era saborosa.

Terminado o desjejum, atravessei novamente a Porta de Damasco e, costeando externamente os muros da cidade, subi o Monte das Oliveiras até o Convento do Paternoster, ou Pai Nosso, passando por diversos pontos de interesse histórico e religioso.

A temperatura estava bem agradável, embora o sol já se fizesse imponente. A paisagem fora dos muros distinguia-se de maneira gritante da Antiga Jerusalém, cheia de cores, odores e um vaivém de pessoas de todas as raças e religiões. O exterior, embora menos claustrofóbico, carecia de cores, que se limitavam ao azul do céu, o branco amarelento usado nas construções daquela região e uma ou outra pincelada de verde, aqui e ali, mas sem aquele vigor das florestas tropicais.

Pensei que a caminhada fosse ser breve, mas, ao contrário, devo ter levado pelo menos uma hora até o topo do Monte da Oliveiras e, como não poderia deixar de ser, até lá encontrei grupos de brasileiros, com seu gesto bem expansivo de ser. São incríveis esses turistas que, por acharem que ninguém está entendendo o que falam, podem gritar como se estivessem num mercado de peixe. E o engraçado é que, como pássaros, estão sempre em bando, quero dizer, grupo. Viajam com um guia, que tenta lhes manter em grupo e explicar um pouco da história do local, mas o que querem saber mesmo é de tirar fotos e de comprar aquele monte de quinquilharias que exibem para seus pares, ao retornarem para suas cidades de origem, não se esquecendo de dizer o quão pouco pagaram (como se porcaria não custasse pouco também aqui no Brasil).

Logo no começo da subida, encontra-se a Igreja das Nações, também chamada de Igreja da Agonia, por ter sido construída sobre o local onde, dizem, Jesus teria parado para orar pela humanidade, na noite da sua captura. Trata-se de uma construção em estilo bizantino, erguida em 1924, com recursos de diversos países (daí ela levar o nome de igreja das nações e ter em cada uma de suas 12 cúpulas representações dos brasões dos países que contribuíram para sua construção). A igreja é interessante (sobretudo suas cúpulas, de um azul que lembram o céu), mas o que chama mais a atenção no local são os troncos retorcidos das velhas oliveiras, algumas das quais com mais de 2 mil anos e, portanto, testemunhas da passagem de cristo pela terra. Caminhar por elas, somente com guia e como eu não tinha nem tempo e nem vontade de molhar a mão de ninguém, apenas fiquei por lá, do lado de fora da grade, tentando imaginar as ultimas cenas de Cristo naquele lugar.

Mas o lugar tem muitas coisas para ver e rapidamente saí do meu transe para seguir adiante, ladeira acima e, já no meio da subida, é impossível deixar de notar um imenso cemitério judeu, repleto de lápides, muitas sobrepostas umas sobre as outras e todas olhando para o vale de Josafá, no sopé do grande templo, onde a humanidade ressuscitará, segundo os ortodoxos, no dia do Juízo Final.

Mais uns minutos montanha acima e, finalmente, chego no Convento do Pai Nosso, que também não é dos mais antigos. A construção é de 1874 e foi realizada sobre uma antiga igreja bizantina, do 4° século, que, por sua vez, está localizada sobre uma gruta onde, dizem Jesus ensinou o Pai Nosso a seus seguidores.
As paredes do edifício, dirigido pela Ordem das Carmelitas, são revestidas por placas contendo a oração Pai Nosso em diversas línguas. A placa, formada por seis azulejos, contendo a oração em português do Brasil, não é das maiores e está nem na entrada do claustro, um jardim com uma imponente tamareira, ao lado de um pinheiro não menos imponente e um silêncio reconfortante, quebrado apenas pelo caminhar de um ou outro turista em meio aos pedregulhos que preenchem as alamedas do jardim. Nos subterrâneos, fica a gruta na qual Jesus provavelmente se reunia com seus discípulos. Embora tenha ficado lá por apenas alguns instantes, fecho os olhos e me lembro de cada detalhe.

Saí do Paternoster e fui para a Capela da Ascensão, que fica bem do outro lado da rua. O local fica onde Jesus teria sido avistado pela última vez após a ressurreição e no qual teria deixada a marca de seu pé num calçamento de mármore. De novo, o que mais comove é a fé das pessoas, que se ajoelham diante daquela marca, rezam e, antes de seguirem adiante em sua peregrinação, beijam-na como se estivessem beijando o próprio Cristo. Minha mente cartesiana, porém, novamente se recusa a acreditar que aquele buraco na pedra, no formato de um calcanhar e que provavelmente foi cunhado pela ação do tempo ou por alguém interessado em ganhar uns trocados (sim, paga-se para entrar!), à custa da fé do povo.

E, deixando essa capela, pequeno edifício com prováveis 2m de diâmetro, construído na forma de um batistério e localizado num terreno baldio, nos fundos de uma mesquita, eu continuo minha peregrinação, agora ladeira abaixo, em direção à Capela Dominus Flevit, de cuja existência eu fiquei sabendo com o auxílio do meu guia de bolso. Foi construída em 1955, no formato de uma lágrima, sobre as fundações (como quase tudo por lá) de uma antiga capela que, por sua vez, foi construída sobre uma pedra onde Jesus teria chorado pelo destino de Jerusalém. A igrejinha é bem simples, porém, possui uma das imagens mais deslumbrantes que já vi: sentado diante do altar, é possível contemplar um crucifixo e, ao fundo, uma janela através da qual se pode admirar a cidade velha e, mais especificamente a Cúpula da Rocha e o Muro das Lamentações. Três religiões em harmonia, unidades num único olhar.

A próxima parada aconteceu na Igreja Ortodoxa Santa Maria Madalena, mandada construir pelo Czar Alexandre III, em memória de sua mãe, Maria Alexandrovna. É interessante ver uma construção em estilo moscovita, com suas cúpulas douradas que podem ser avistadas desde muito longe, em meio do deserto. Interessantes também as pinturas sobre suas paredes internas, que contam algumas passagens da vida de Maria Madalena, mulher de fibra e com uma história riquíssima, embora seja conhecida apenas por ter levado sua juventude com uma liberdade que, nos dias de hoje, é considerada até normal.

E foi nessa igreja que até tentei comprar umas lembrancinhas para dar para alguns familiares. O problema é que não havia muitas opções, sem contar que as vendedoras, todas freiras, assustavam qualquer cliente com seu odor de pelo menos uma semana sem tomar banho e uma barba quase tão longa quanto à de freis ortodoxos. Não sei quem disse que para ser religioso é necessário se esquecer de si. Se o indivíduo não gosta de si mesmo, como vai ajudar os outros, função primordial de um religioso?

Em, voltando a caminhar, passei pela gruta onde Judas teria traído Cristo e, por fim, parei no Túmulo da Virgem, construção do século XII, entre as mais espetaculares de Jerusalém. E o que chama mais a atenção é a escadaria de 47 amplos degraus, ladeados por túmulos de reis católicos, que levam ao subterrâneo onde teria sido sepultada a Virgem Maria, cujos espólios teriam sido transportados de Efésio a Jerusalém pelos cruzados. É difícil descrever o local, iluminado por lamparinas coloridas e que em muito lembram as construções russas, já é administrado pela igreja ortodoxa russa. Não é uma igreja grande e nem possui o tradicional formato de cruz. Logo após descer as escadas, caio num amplo corredor, tendo de um lado o túmulo da virgem e de outro um salão, com pinturas sobre as paredes que contam momentos da vida de Cristo ainda jovem, aprendendo com o pai a profissão de carpinteiro.

Já meio cansado e com minha amiga Hanni me esperando do lado de fora da Porta de Jaffa, saí em disparada em direção à Porta dos Leões, a partir de onde peguei a Via Dolorosa, menor caminho até meu destino final. Claro que, no meio desse caminho, mesmo correndo feito um doido, não pude deixar de dar uma paradinha na casa onde Maria teria nascido, hoje nos subterrâneos de uma igreja. É difícil acreditar que alguém anônimo na época, como é o caso de Maria, tivesse a casa onde nasceu identificada e conservada tanto tempo depois. De qualquer modo, fiz minha rápida parada e segui novamente minha caminhada.

Mais alguns minutos e lá estava eu do lado de fora da Porta de Jaffa, onde minha amiga me aguardava. Não havia mudado muito desde a última vez que a havia visto em Buenos Aires. Depois de nos cumprimentarmos, perguntou em seu inglês macarrônico o que desejava fazer e eu respondi num inglês não muito distante do seu o que esperava daquela tarde.

Bem, eu queria visitar a Basílica da Natividade, logo ali, em Belém, mas pelo seu tom de voz, Hanni deu a entender que não poderia ir até lá, já que o local fica em terras palestinas e ela é israelense. Foi então que resolvemos fazer um city tour, parando em algumas colinas em torno da cidade e das quais podia ver Jerusalém de vários ângulos.

Paramos para algumas fotos, tomamos algo num barzinho e seguimos cidade nova adentro para pegar uma bela estrada, em meio a uma floresta de pinheiros, totalmente plantada, que dava numa cidadezinha nem um pouco turística, onde passamos algumas horas entre almoço e café. A cidade se chama Ein-Kerem e o local onde almoçamos, que dava de frente para a tal floresta, Brasserie Ein-Kerem. Aliás, o local é tão agradável que, embora não costume fazer propaganda, acho que vale deixar aqui registrado o site do local: www.2eat.co.il/eng/brasseriejer. Não me lembro o que comi, mas lembro que gostei muito. O local era tão agradável, bem como a comida e a companhia, que o inglês enferrujado nem chegou a ser um problema para hora de conversa, que se prolongaram mais um pouco, num rápido jantar em Cesaréia.

Mas antes de chegar à antiga cidade portuária, passamos rapidamente por Tel-Aviv, cidade que lembra Nova York, ou São Francisco, com construções moderníssimas. Aliás, falando em modernidade, não pude deixar de me surpreender com o fato de Israel fornecer acesso à internet de alta qualidade e de graça para qualquer um. Basta escolher a rede com melhor sinal, se conectar e sair navegando. Isso sim é primeiro mundo, embora problemas de outra ordem afetem o local.

E eis que chegamos às ruínas de Cesaréia, já noite adentro, vendo seus antigos edifícios, ou o que sobrou deles, com aquela iluminação que valoriza qualquer pedaço de pedra sem valor (o que não de um patrimônio da humanidade?). A cidade foi construída por Herodes, em homenagem a César Augusto, sobre os vestígios de um antigo porto fenício. Possuía um grande anfiteatro, hoje completamente restaurado e palco de grandes espetáculos que, infelizmente, não pude assistir.

Já era tarde quando Hanni me deixou na rodoviária de Tel-Aviv, onde me despedi dela e peguei o ônibus para Jerusalém. No começo, senti um pouco de insegurança com o local, mas depois, como se diz por aqui, entreguei a Deus e segui minha viagem de pouco menos de uma hora na maior tranquilidade.

Estava tão tranquilo, que desci do ônibus na rodoviária de Jerusalém, segui para a faixa de pedestres, aguardei os veículos em trânsito passarem e atravessei em direção a um taxi. No meio do caminho, porém, um desvairado gritava atrás de mim e só parou quando conseguiu me interceptar. Perguntou com as mãos se eu era surdo, ao que respondi que não falava sua língua. Indagou, então, onde ia, ao que apontei para o ponto de táxi, informando que estava a caminho do hotel.

Já dentro do taxi, perguntei ao motorista, um jovem de 29 anos, de origem síria, chamado Salmon, quem eram aqueles homens (às vezes mulheres) em roupas verde-limão. Ele me respondeu, num inglês sofrível, que se tratavam de homens da guarda (aliás, ele também era um policial voluntário, trabalho que fazia durante 2 horas por dia). Somente aí que me dei conta que, bem por pouco, escapei de levar um tiro por não ter entendido que o fulano gritava em hebraico atrás de mim.

Mais um pouco e me via diante da Porta de Damasco novamente onde, no dia seguinte, o mesmo motorista me pegaria bem cedo para me levar até a fronteira, onde outro motorista me aguardava para iniciar a segunda parte desta viagem, agora em terras jordanianas.

Caminhei ainda alguns minutos até chegar no hotel. O silêncio era grande, pois àquela hora o vai-vem de pessoas dava uma pausa, pelo menos até que os primeiros raios de sol despontassem novamente no horizonte. Apenas um ou outro soldado em alguns cantos da cidade, que dormia o sono dos justos, coisa que também queria fazer, depois de um dia tão rico de informações.