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domingo, 6 de julho de 2014

MASP: MUITO MAIS DO QUE UM MUSEU

O dia estava perfeito para uma conversa com a arquitetura e as artes. O céu azul de brigadeiro contrastava com os verdes das árvores, que clamavam despudoradamente por atenção, num desfile assoberbado de folhagens de diferentes tonalidades e texturas. Também do céu soprava a brisa fresca da manhã, que mitigava o calor do sol já alto e que parecia esquecer-se que os primeiros dias de outono já haviam desabrochado.

Como era uma sexta-feira santa, o trânsito estava bem camarada e o percurso dos arrabaldes de São Paulo, às margens da Rodovia Raposo Tavares, onde moro, até o espigão da Avenida Paulista foi feito em pouco menos de 30 minutos.

Deixei o carro num estacionamento da região (meu destino não tem estacionamento próprio) e caminhei dois quarteirões até chegar ao número 1578, endereço de um antigo mirante, de onde, em dias com céu aberto, até os idos dos anos 60/70, era possível avistar todo o vale do Anhangabaú até a Serra da Cantareira.
Bons tempos esses em que Avenida Paulista era um local de veraneio, onde as famílias abastadas possuíam suas chácaras, nas quais podiam desfrutar do ar puro do campo e, ao mesmo tempo, estarem próximas do centro de uma das cidades que, poucos anos depois, tornar-se-ia uma das maiores do mundo, com todas as complicações que comporta ser gigante.

Enquanto caminhava, imaginava como se sentiria um viajante do tempo ao pousar na Paulista 100 anos depois da sua fundação, que seu deu, aliás, por iniciativa de Joaquim Eugênio de Lima, engenheiro e jornalista que planejou o loteamento da região e que, em testamento, doou para a cidade de São Paulo o terreno onde o prefeito Ademar de Barros mandou erguer a atual sede do Museu de Arte de São Paulo, meu destino daquela manhã.

Pássaros certamente não gorjeiam mais por lá, embora vez ou outra um sabiá-laranjeira esqueça-se que cidade grande não é lugar de passarinho cantar e, pousado numa ou outra árvore que desafiam os imponentes edifícios, solta seu canto em meio à multidão sempre apressada. Os mais sensíveis param para ouvir essa sinfonia da natureza, mas a maioria não consegue sequer presta atenção aos buzinaços, aos toc-tocs dos calçados e ao barulho dos motores dos automóveis, para não falar das incontáveis manifestações a favor dessa ou daquela causa.

O modo de se vestir também mudou um pouco. Bem, na verdade, mudou muito. Nem tanto para os homens que, basicamente, deixaram de usar seus elegantes chapéus. Já as mulheres, essas fizeram uma verdadeira revolução no guarda-roupa, encurtando vestidos, alongando decotes, eliminando acessórios e incluindo outros, às vezes com bom gosto, às vezes apenas com gosto.

Quantos pensamentos, tão diferentes e em tão pouco espaço de tempo!

De repente, minha caminhada chega ao fim e meu destino descortina-se bem à minha frente, um tanto quanto sem o lustro que um dia já teve, mas ainda com certa imponência, intrínseca ao seu passado e ao rico conteúdo que guarda e que já foi visto pelo povo e por majestades de diferentes origens. Cerca de 845 mil por ano. Muito? Bem, digamos que o potencial ainda não foi explorado na sua total plenitude.

O espelho d’água que banha os pés do edifício projetado por Lina Bo Bardi está esverdeado, anunciando que algo de errado paira por aqueles domínios. Observo com mais atenção e, além do musgo, um guarda-chuvas aberto e meio quebrado ocupa o local onde carpas coloridas um dia habitaram. Olho para cima e vejo que as colunas vermelhas, que sustentam e envolvem a imponente caixa de vidro estão meio sem vida, consumida pelo peso dos anos. Mas afinal de contas, o edifício nem é tão idoso assim. Foi inaugurado em 1968!

Caminho um pouco mais além e uma lufada de fumo (sim, aquele mesmo que é proibido, mas cujo livre consumo vem sendo bastante defendido ultimamente) me faz parar ao ponto de me entristecer, assim como a pequena multidão que, sem destino, protege-se das intempéries no grande vão de 74m e que já foi o maior do gênero no mundo. Entretanto, um inesperado som de clarinete começa a ecoar por aquele imenso vazio, desfazendo qualquer pensamento mais pesado, dando vida e alegria a quem ousasse escutá-lo. Eu ousei e, levado por sua graciosidade, fui me aproximando da bilheteria, onde outra pequena multidão aguardava para comprar seus ingressos. Mais um motivo de alegria, pois acreditava encontrar bem pouca gente por lá naquele primeiro dia de um longo feriado. Brasileiro gosta sim das ciências e das artes, concluí. Bem, brasileiros e estrangeiros, que dividiam de igual para igual os corredores do museu.

Falando em museu, essa palavra nunca me agradou. Lembra coisa velha, cheirando a mofo, com ar decadente, coisa que o MASP está longe de ser, apesar dos problemas pelos quais passa e que, vira e mexe, aparecem na mídia. Eu prefiro galeria, termo mais cool, como diriam os amigos anglo-saxônicos, que remete espaço vivo, com gente moderna e culta, que busca ver, mas também ser vista. E não é que foi essa a sensação que tive ao desembarcar, depois de um longo inverno, no segundo andar do edifício.

Mas como assim, em constante movimento, pode estar se perguntando você, que está lendo este artigo, neste momento? E me antecipando à sua provável dúvida, te digo que a coleção do MASP, reunida ao longo de várias décadas, a partir de 1947, está em constante movimento para poder expor seus mais de 8 mil itens catalogados, mas não todos de uma vez, o que seria impossível no atual imóvel que, entre seus vários ambientes, possui algo em torno de 11 mil metros quadrados. É obra “pra chuchu”! Pense bem, é como se a cada passo o visitante desse de cara com um Rembrandt, um Renoir, ou um Van Gogh, para citar apenas alguns dos grandes mestres da pintura universal que se alternam entre as salas do primeiro e do segundo andar, além das várias salas do sobsolo, que compreendem a chamada reserva técnica, uma caixa-forte que repousa a alguns metros abaixo da Avenida Paulista e onde a maior parte do acervo é guardada enquanto aguarda sua vez de ser vista, segundo critérios que têm mudado ao longo dos anos, conforme a proposta do curador-chefe em atividade.

Quando inaugurado o espaço da Avenida Paulista, em cerimônia que contou com a ilustre presença de Elisabete II, Rainha da Inglaterra, Lina Bo Bardi propôs que o acervo fosse exposto num salão sem paredes, no qual o visitante pudesse ver todas as peças de uma vez só, sem barreiras. Para tanto, as obras eram içadas do chão por cabos de aço e protegidas entre placas de vidro sustentadas por colunas de concreto. A ordem era ditada pelo período da obra e sua origem geográfica. Gostava desse conceito, abandonado no final dos anos 1990, quando as tradicionais paredes divisórias passaram a dar o tom de ordem ao local.

Com as paredes, veio o conceito de reunir as peças por tema e o deste momento reside no detalhe, conforme assevera o seguinte texto colocado bem no ingresso da exposição: “Durante longo período, a arte foi um tributo ao detalhe, indício forte do valor de um artista. Uma flor, um relógio sobre uma mesa, um sorriso, constituíam a base narrativa. Foi então que o detalhe começou a dissolver-se, até sair de cena”.
O detalhe desse texto, que abre a exposição “O Triunfo do Detalhe e depois, o nada” parece compor com maestria esse nada. Despercebido pelas pessoas que por ali passavam, embora bem na abertura da exposição, fazia companhia ao busto de Deus Pai, do Italiano Girolamo Santa Croce, que preenchia outro vazio, o do alto da escadaria que une o primeiro e o segundo andares do edifício. Separado do paredão que marca o inicio da exposição por outra parede, sendo essa de vidro, o belo busto de mármore de Carrara possui mais de 500 anos e retrata um Deus com ar meio triste, cabisbaixo, olhando em direção a sua criação, do alto das nuvens sobre as quais repousa. Parece saber-se esquecido.

Mas não se pode falar em detalhes sem se deter no detalhe do próprio edifício, exemplo da arquitetura brutalista, espécie de movimento desenvolvido por arquitetos modernistas por volta dos anos 1950 e 1960 e cujo conceito reside em não esconder os elementos estruturais, o que se conseguia, por exemplo, deixando o concreto armado à mostra, ou destacando os perfis metálicos de vigas e pilares. Foi concebido pela arquiteta Lina Bo Bardi, esposa do jornalista e crítico de arte Pietro Maria Bardi que, ao vir ao Brasil como curador de uma exposição de obras italianas, foi convidado pelo rei das comunicações de então, Assis Chateaubriand, ou simplesmente Chatô, a criar no Brasil um museu de artes antigas e modernas. Aceitou ajudar a criar um museu de artes, sem distinção entre antigo e moderno, à frente do qual ficaria por apenas um ano. Acabou ficando por quase cinco décadas.

Enquanto Bardi buscava obras de valor em países recém-saídos de duas grandes guerras, com tudo a ser refeito e dinheiro nenhum para pagar as contas, colocando no mercado grande quantidade de obras a preços baixos, Chateaubriand corria atrás de fundos para a aquisição dessas obras, coadjuvado por seu fiel escudeiro e diretor de finanças de seu grupo de comunicação, Edmundo Monteiro, que propunha à florescente burguesia industrial a troca de espaço publicitário por polpudas somas de dinheiro necessárias para dar vida ao MASP.

Nesse ínterim, Lina encontrava no Brasil um país livre das amarras do passado, onde podia criar livremente, segundo o padrão modernista de então, de difícil aceitação na Europa e que já fervilhava nas mentes de nada menos do que Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Cândido Portinari e Burle Marx, entre outros nomes que teve o prazer de frequentar.

Inspirada pelo país onde escolheu viver e pelas amizades que por aqui conseguiu fazer, Lina criou um edifício que se destaca na paisagem e que se tornou cartão postal de São Paulo. Por desejo do doador do terreno à prefeitura, não podia construir no local obra nenhuma que interferisse na amplidão do panorama (mal sabia ele que esse panorama seria destruído pela ocupação desordenada da cidade, ao longo da Avenida 9 de Julho), o que demandava a construção de um edifício subterrâneo, ou um suspenso. Entre uma e outra, Lina escolheu as duas!

Nos dois andares que se erguem sobre quatro pilares, projetou espaços onde expor a coleção do museu (galeria!) e mostras temporárias. No subsolo, construiu auditórios, mais salas de exposições temporárias (eu me lembro de uma memorável sobre Picasso e outra sobre Dali, com filas homéricas para entrar e ver cada obra), uma livraria (já viram museu sem uma livraria?) e um restaurante.

Falando em restaurante, aliás, que saudades da época em que o espaço se chamava Degas, em homenagem ao francês que se eternizou ao retratar, em telas e bronzes, bailarinas nas mais diversas posições. Comia-se muito bem (hoje também, mas sem o glamour de então) ao som de um agradável quarteto de cordas. Coisa chique ao alcance de todos os bolsos!

Mas Edgar Degas, nesse vaivém de detalhes que compõem um acervo montado ao longo de décadas não marcou seu nome apenas no espaço gastronômico do museu. Quem acha isso, não sabe que, além do MASP, somente o Museu D’Orsay, de Paris, e o Metropolitan, de Nova York, possuem a coleção completa de73 bronzes do artista. Uma das peças, aliás, faz parte da atual exposição. E que peça! Trata-se de uma bailarina, com os cabelos trançados, os braços para trás, a cabeça altiva e um dos pés prontos para girar e fazer seu vestido de tecidos leves rodar, dando indescritível graça ao movimento.

E como falar de bronzes sem citar o exemplar A Eterna Primavera, de August Rodin, que compõe a coleção do MASP. Olho para os dois amantes, Cupido e Psiquê, beijando-se calorosamente, como se nada mais no mundo importasse, e fico imaginando como a mão humana consegue reproduzir os detalhes daqueles corpos contorcidos com tamanha perfeição. Parece que, nessa ocasião, Rodin brincava de ser Deus, ou este brincava com os homens através de Rodin, procurando despertar-lhes a pureza de um sentimento, imortalizando-o num material tão frio.

E falando em Deus, volto minhas memórias daquele dia para o segundo andar do acervo, passo novamente pela estátua de Girolamo Santa Croce e sigo o percurso sugerido por um dos guardas, sentado num banquinho, sem se acreditar ser parte daqueles detalhes. Acato sua sugestão e começo minha exploração por uma recém-restaurada tela de Vitor Meirelles. Passaria batido por essa, se não estivesse gravada na minha mente, como se a tivesse vendo pela primeira vez, ilustrando uma das páginas de uma coleção da Editora Abril, intitulada Grandes Personagens da História do Brasil. Bem, a personagem da tela, embora tenha cedido seu nome a um importante bairro de São Paulo, não é das mais conhecidas. Nem por isso, porém, a cena retratada por Meirelles, no final dos anos 1800, deixa de representar com maestria os primeiros anos do Brasil, pós-descobrimento. Bem, a personagem é Moema, irmã da índia Paraguaçu, trazida pelas águas nas quais se havia atirado, num acesso de loucura, atrás do navio que levava Paraguaçu e seu marido, Caramuru, grande amor de Moema, para a distante Europa. Na tela, não parece morta, mas apenas adormecida sobre as areias aquecidas pelo sol de um final de tarde e acariciadas pela volúpia do mar.

Deixo Moema em seu sono profundo, que chegou a incomodar a crítica da época (afinal de contas, criticar é mais fácil do que fazer), para continuar meu mergulho nos detalhes. Fico impressionado com o tom de azul, muito intenso das paredes. Cumprem muito bem seu papel de destacar cada tela exposta, começando por um longo desfile de representantes da escola flamenga. É incrível que como, do alto de seus 400 anos, não parecem ser obervados. Ao contrário, parecem observar, sorrir, cumprimentar-nos. Acho até que gostam desse encontro, do diálogo de olhares travado entre eles e os visitantes, nos quais despertam diferentes emoções.

Caminho um pouco mais e me vejo diante da severa figura do Arquiduque Alberto VII, da Áustria, retratado por Rubens em 1615. Suas roupas negras, decoradas com detalhes dourados destacam-se no fundo vermelho. Ao lado, o Conde-Duque de Olivares, segundo o mestre Velázquez. Passa a ideia de um homem tímido, meio gordo e com aspecto avarento, ao contrário do seu vizinho da direita, com cabeça altiva, cabelos grisalhos e espada em punho.

Do outro lado, observando uma terracota chinesa disposta no meio da sala, o Cardeal Cristoforo Madruzzo, numa obra de do italiano Tiziano que representa a efemeridade de tudo (juventude, poder, posses) num relógio acomodado numa mesa ao lado do representante da igreja.

Quando passo à obra seguinte, não é a tela em si, reprodução de uma obra de Paolo Veronese, que me surpreende, mas o comentário do jovem observador. Ele nota uma pele de leão sobre o personagem retratado e corre dizer à mãe que se trata de Hércules. Ela não acredita, mas ele insiste e a faz ler a inscrição ao lado do quadro, comprovando o que havia dito e ganhando o elogio de entendedor de artes. O que prova que basta o ambiente confabular a favor que a criança aprende boas coisas.

Lendo as inscrições ao lado das peças expostas, noto que Ricardo Jafet , advogado, banqueiro e industrial brasileiro, foi um dos grandes doadores desse templo de devoção às artes. Ao lado dele, os Crespi (aqueles mesmos que ergueram o que é hoje o Museu da Casa Brasileira), os Matarazzo (cujo patriarca, Francisco, dispensa apresentações), os Penteado, os Pignatari e tantos outros, imigrantes e nascidos nesta terra, que fizeram fortuna, mas que souberam devolver um pouco do que ganharam ou receberam deste país em obras como essa, que ficaram como prova da pujança desse país e desse estado, sedentos de crescimento, embora às vezes titubeantes em seus ideais.

Retornando à busca por detalhes, eis que ele surge, um tanto quanto acanhado, meio distraído, como se estivesse se observando num espelho, o retrato do jovem Rembrandt, realizado pelo próprio, quando a barba ainda mal lhe cobria o rosto. A roupa pesada indica o clima frio na época em que foi pintado, assim como a boina, que pousa sobre a cabeça do jovem pintor. O cenho meio franzido faz pensar que o resultado não agradava muito ao artista, ou talvez que estivesse bem concentrado, para não perder nenhum detalhe que seus olhos conseguissem captar. Com a boca fechada, é a luz de seu rosto quem fala. Mas fala para quem? Para quem o observa, é claro, mas também para as terracotas chinesas, que resolvo investigar, deixando para conversar com Van Dyck, vizinho de Rembrandt, numa outra ocasião.

Tão belos, tão ricos de detalhes, esses guerreiros chineses de terracota parecem chamar a atenção somente dos personagens das telas e de mim. Esquecidos no meio do salão, sem conseguir chamar a atenção de nenhum visitante, do alto de seus 2.600 anos, parecem invisíveis. Fantástica a expressão de seus olhos, severos, com as sobrancelhas erguidas. Os braços, saídos das bocas de dragões, que lhes tomam o lugar dos ombros, estão em posição de ataque. Mas golpear o que? Talvez o ar, talvez desejem apenas assustar.
Alguns passos mais adiante e um pequeno Corot me chama atenção. Trata-se de um maço de flores, já meio murcho, mas nem por isso menos intrigante, acomodado num copo. Um preanuncio, talvez, para outro Corot, bem maior e mais impactante, que retrata uma jovem cigana, com a cabeça meio caída de lado, esquecida de si mesma e tocando um bandolim, que os ouvidos mais imaginativos até conseguem escutar. Em que será que pensava? Certamente não nos Goyas que lhe sucediam, como o retrato do jovem cardeal (mais um!), com o loiro de seus cabelos destacados pelo vermelho cardinalício de seus trajes.

Mas é o retrato da jovem Duquesa de Parma que me tira do transe e me faz rir um pouco. Retratada como uma figura mitológica, deitada sobre uma espreguiçadeira, com o globo terrestre sobre um dos cotovelos e um cesto cheio de frutas e moedas no outro, parecia aguardar ansiosamente pelo término do trabalho do pintor para atacar as frutas e gastar todas as moedas, de ouro, é claro, provavelmente com um novo vestido, talvez mais largo, para acomodar melhor toda aquela protuberância.

Se a Duquesa de Parma me fez rir, a jovem Angélica Acorrentada, de Ingres, me faz sentir todo seu sofrimento, estampado na pele alva que ilumina a tela, na cabeça caída para trás e nos olhos melancólicos. E o Jovem Gabriel Godefroy, então, de tão real, parece saltar da tela, assim como o peão com o qual brinca atentamente, sobre sua mesa de estudos. “A educação faz tudo”, é o título da obra exposta de Jean-Honoré Fragonard, membro da secular família produtora de perfumes e que cujo nome está nos 4 cantos da pequena cidade de Gras. Faltou dizer que a educação faz tudo se for feito algo por ela, que não pode ser um mero detalhe no meio da sociedade.

As paredes mudam de cor e percebo, no tom das telas, que o detalhe começa a se desfazer. O Impressionismo começa a se fazer presente, com magníficos exemplares de Joseph Turner e Monet. Mas nesse começo de impressionismo, segundo o qual não é o detalhe que conta, mas a impressão geral, são os jardins da Catedral de Salisbury que me chamam a atenção, fazendo-me mergulhar na tela, caminhar por entre aquelas árvores e adentrar naquele templo de orações. Tudo isso numa fração de segundos, que mais parecem uma eternidade.

Mais uma mudança de cor nas paredes e percebo um Matisse, que grita para ser visto. Uma jovem atende a seu pedido, enquanto os observo, pacificado pela cena e esquecido do tempo, que parece não passar naquele caminho gramado, salpicado de flores vermelhas, que terminam num vilarejo, lá no fundo, bem na linha do horizonte. Mas será que termina?

De repente, as paredes tornam-se brancas. É uma indicação de que os detalhes não são mais importantes. O abstracionismo passa a roubar a cena e, no meio dela, destaca-se o retrato de um homem, feito por Picasso, com as feições desestruturadas, irregulares. Parece triste, ou quem sabe apenas compenetrado. Logo mais ali, um Ianelli dá cor à parede, mas sem qualquer forma. É o detalhe que chega ao fim. O nada.

E pensando que a exposição havia chegado ao fim, corri para o primeiro andar. Não permaneci muito tempo por lá. Apenas alguns minutos para observar rapidamente as gravuras de artistas mais contemporâneos, como Claudio Tozzi, Tomie Ohtake e Aldemir Martins, meu preferido entre eles. Além de mim, um ou outro guarda e o silêncio, rompido pelo meu caminhar e minha respiração.

De repente, lembrei que havia pulado uma pequena seção do segundo andar e voltei para lá. Já meio cansado, não me detenho muito tempo em cada tela, mas não posso deixar de observar outro Picasso. Desta vez, o retrato de Suzanne Bloch, aquele mesmo que foi roubado há alguns anos atrás, juntamente com o Lavrador de Café, de Cândido Portinari. Felizmente, ambos foram recuperados e retornaram para casa sem qualquer arranhão.

Meio titubeante se prosseguir, ou retornar em outro dia, resolvi prosseguir e apreciar os 6 Modigliani que fazem parte da coleção, entre os quais o famoso retrato de Leopold Zborowski. Que figura marcante, com o rosto alongado e os olhos amendoados, como num máscara africana, fonte de inspiração do pintor, italiano, mas pertencente à escola francesa.

Mas a grandeza da coleção do MASP ainda está longe de terminar. Que dedo bom para as artes tinha esse Pietro Maria Bardi. Que força de vontade tinha aquele paraibana arretado das comunicações. Que patrimônio deixado para os brasileiros, que viajam para o exterior, lotam os museus de Paris, Londres e Nova York e mal sabem que bem ali, na Avenida Paulista, a mais paulista das avenidas, estão guardadas obras de impor respeito. A lista é tão longa e os detalhes são tão numerosos que vale à pena terminar apenas dizendo que, além dos detalhes aqui descritos, outros tantos podem ser observados em simplesmente nove Toulouse-Lautrec (fantástico o retrato de Monsieur Pascal), cinco Van Gogh (com especial destaque para o Passeio no Crepúsculo, que retrata tão bem os típicos ciprestes que Van Gogh trazia tão bem para suas telas com suas forte pinceladas), onze Renoir (como não se emocionar diante de Rosa e Azul?), além de obras de Cézanne, Manet, Utrillo, El Greco e, para terminar, um Botticelli.


Programa obrigatório para todas as idades. Para ver, rever e valorizar o esforço de todos os que colaboraram e continuam a colaborar para o crescimento desse local, criado por dois italianos, financiado pelo gênio de um paraibano e apreciado pelo mundo todo.

domingo, 4 de agosto de 2013

MESTRES DO RENASCIMENTO E UM PASSEIO PELO CENTRO DE SÃO PAULO

Já foi visitar a exposição sobre os mestres renascentistas? Não? Então programe-se para ir nos próximos finais de semana, até dia 13 de setembro. A exposição reúne 57 obras garimpadas em importantes coleções italianas de diferentes cidades italianas, entre as quais Florença, Roma, Veneza e Milão.

A idéia dos curadores foi mostrar como o renascentismo se desenvolveu em Florença e depois se espalhou por toda a península itálica, tendo adquirido características próprias em cada região. Por exemplo, na escola florentina a luz vem de dentro para fora, evidenciando a perspecitva e levando o observador para dentro do quadro. Já no caso da escola veneziana, a luminosidade vem de fora para dentro, concentrando-se em alguns pontos principais da obra, de modo a também captar a atenção do observador.

A exposição possui peças que raramente saem da Itália e incluem três belissimos Raffaellos, entre os quais o Cristo Benedicente disposto na fachada do Centro Cultural Banco do Brasil e que cumprimenta a todos os passantes pela Rua São Bento.


Unem-se a esse time de obras primas desenhos de Michelangelo e pinturas de Bellini, Ticiano, Tintoretto, Veronese, Botticelli, Perugino e do mestre Leonardo da Vinci, para citar apenas os mais conhecidos. A peça de Leonardo, aliás, colocada num canto, junto a obras de outros pintores que ilustram o renascimento em Milão, na minha opinião, é priva do devido destaque que uma obra do mestre florentino deveria ter e que merecia uma sala exclusiva para sua apreciação. A peça exposta é a Leda e o Cisne, obra pertencente à Galeria Borghese e que, embora não tão famosa como a Monalisa, contém todos os elementos que são característicos de Da Vinci, como as linhas de fuga e a paisagem distante que contrastam com a imagem da figura mitológica de Leda, em primeiro plano, abraçada a um cisne e observada por dois anjos.

A exposição também contém algumas esculturas, entre as quais um busto de Cristo, feito em argila policromada e de autoria de Andrea del Verrocchio, que teve como pupilos ninguém menos qe Botticelli, Perugino e Leonardo da Vinci. Seu ateliê foi dos mais famosos da época e sua arte reconhecida como das mais belas. Seu Cristo, com a boca levemente aberta e com a cabeça girada para a esquerda parece falar com quem dele se aproxima.

Quem quiser se dar de presente esse banho de cultura tem até o dia 13 de setembro, mas tem que acordar cedo. Até as 10.00, quase não existem filas, mas lá pela hora do almoço a espera para entrar pode ser de até duas horas e meia. Entretanto, se você possui mais de 60 anos, tem direito a entrada preferencial junto a um acompanhante.

A exposição está abrigada no Centro Cultural do Banco do Brasil, logo ali, na Rua Álvares Penteado, a dois passos da Praça do Patriarca. De brinde, você ainda ganha um belo passeio pelo centro histórico de São Paulo, que esconde edifícios com fachadas que não deixam a dever ao que há de mais belo em Paris e Buenos Aires. Aliás, a própria sede do Centro Cultural Banco do Brasil é um belo exemplo de arquitetura art nouveaux, com bronzes, mosaicos e vitrais que infelizmente já não se fazem mais.

Na saída, tome um cafezinho no próprio bar do CCBB, com grãos produzidos na Fazenda Pessegueiro, avaliados entre os melhores do mundo. Já na lojinha, além do catálogo da exposição, algumas poucas peças disponíveis para os consumidores de arte. Aliás, fica a dica para os admnistradores do local também colocarem à venda pelo menos os catálogos das exposições anteriores.



E falando em Praça do Patriarca, vale lembrar que ela ganha esse nome em homenagem a José Bonifácio de Andrada e Silva, preceptor de Pedro I e Pedro II e um dos artífices da independência do Brasil. Sua estátua de bronze, meio perdida na imensidão do local, dá as costas para o Viaduto do Chá e divide espaço com a igrejinha de Santo Antônio e com o sisudo edifício de linhas fascistas, feito construir por Francisco Matarazzo e hoje sede da Prefeitura de São Paulo.


Caminhe mais um pouco, em direção à estação São Bento do Metrô (é o melhor modo de chegar a esse ponto da cidade) e passará em frente ao Edifício Martinelli, construído no final do ciclo do ouro do café e que já mereceu neste blog um texto exclusivo sobre ele e o período em que foi construído.

Bom passeio!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

SÃO PAULO VISTA DO ALTO DE SEUS TERRAÇOS

Da visão que se tinha da pequena vila de São Paulo do Piratininga, ao dela se aproximar pela antiga Estrada de Tabatingüera, restam somente lembranças registradas em aquarelas por viajantes de passagem pelo mirrado ajuntamento de casas construído no alto de um morro e isolado boa parte do ano pelas cheias dos rios Anhangabaú e Tamanduateí. Resta também a Rua Tabatingüera, que em nada lembra o venho caminho do mar, espremida entre o Parque Dom Pedro e a Praça da Sé e sufocada por arranha-céus de todos os tamanhos.

A vila eclodiu, desenvolveu-se, cresceu e as graciosas palmeiras, onde cantavam os sabiás que encantavam os poetas românticos de décadas atrás, deram lugar a construções ora sisudas, ora fascinantes, às vezes irreverentes, mas que em quaisquer casos levam-nos a querer saber como, em pouco mais de cem anos, um povoado esquecido no meio do nada se tornou uma das maiores metrópoles mundiais.

De fato, até 1870 São Paulo contava com pouco mais de trinta mil habitantes, número que pulou para um milhão, por volta de 1920, e para mais de onze milhões nos dias atuais. De onde veio tanta gente, ou o que talvez seja mais apropriado perguntar, o que atraiu a atenção de tanta gente para cá? E a resposta a essa pergunta está muito mais próxima do cotidiano de todos nós do que possamos imaginar: um cafezinho.

Sim, um simples cafezinho, que quase todos degustamos puro ou com leite, alongado ou curto, logo pela manhã, ao acordar, ou depois do almoço, para não deixar o sono nos levar. Uma bebida simples, que nem mesmo é nativa do Brasil, mas que na terra avermelhada de São Paulo, chamada “rossa” pelos imigrantes italianos, de onde nasce o termo “terra roxa” dado pelos paulistas, proliferou e tornou-se uma das maiores riquezas deste país.

Pois é, o café paulista ganhou o mundo (até 1929, 75% do café comercializado no mundo era produzido em São Paulo) e acabou enriquecendo muita gente, uma elite de fazendeiros que o tempo se encarregou de chamar de barões, os quais, como todos os endinheirados, passaram a ter necessidades que a vidinha provinciana de São Paulo não era capaz de satisfazer. Para aquietar essa demanda latente, primeiro um comércio e depois uma pequena indústria começaram a se desenvolver e cresceram impulsionados particularmente pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, construída para ajudar a escoar a produção de café e que propiciou a vinda para a capital, estrategicamente colocada no meio do caminho entre o porto e as plantações, de produtos de primeira linha, trazidos da Europa como lastros dos navios que tinham a incumbência de levar para o exterior a valiosa bebida brasileira.

Mas de onde veio a mão de obra necessária para dar vida a esse comércio e indústria, já que a coletividade mameluca local não tinha experiência nesse tipo de atividade? Bem, é aí que começa a saga de muitas famílias de imigrantes, em mais de 50% dos casos italianas, que de 1887 a 1920 vieram “a rodo” para o Estado e a cidade de São Paulo, assegurando num primeiro momento a produção de café e, posteriormente, colaborando na implantação do embrionário sistema comercial e industrial paulista, desenvolvendo atividades nas quais eram mestres em suas terras de origem, como a de ferreiro, sapateiro, marceneiro, pedreiro, costureiro, padeiro, tecelão, modelador e até mesmo de músico. A terra dos bandeirantes era carente de todos os tipos de profissionais que pudessem trazer o conforto almejado pela elite florescente e, para se ter uma idéia da quantidade de imigrantes que São Paulo acolheu, por volta de 1920, dois terços de sua população era formada por estrangeiros.

Tanta gente assim, além de trabalhar e influenciar a cultura local com seus sabores, odores, hábitos e sotaques, também precisava viver, morar, ter um lugar onde transcorrer as horas de folga com suas famílias. Para resolver essa questão, os próprios fazendeiros apresentaram uma solução, qual seja, construir casas de aluguel que começaram a transfigurar a geografia de São Paulo e garantir a manutenção das fortunas de seus proprietários, já que os imóveis de aluguel propiciavam ganhos maiores do que as aplicações bancárias.

Essas construções de aluguel, bem como as novas e confortáveis residências dos abastados cafeicultores, decoradas com o requinte que o título de barão merecia, marcam uma drástica mudança na arquitetura local até então baseada na taipa de pilão. Com os imigrantes vieram as técnicas de produção de tijolos, que por sua vez permitiam a edificação de construções maiores, mais altas e mais robustas. Os imigrantes também trouxeram para cá suas técnicas de decoração e pintura, que passaram a ser largamente empregadas por escritórios de arquitetura e construção que fizeram a fama no início do século XX, como é o caso de Ramos de Azevedo, responsável pela construção de grande parte dos inúmeros palacetes que passaram a fazer parte da paisagem paulista, bem como diversos edifícios públicos.

A arraigada cidade cresceu e nos diversos bairros que se formaram em volta do centro fundado pelos jesuítas, o que se percebia era um ar de cidade européia, com belas construções em meio à rica vegetação e envoltas pela bruma da manhã que alguns chamavam de garoa e que hoje foi substituída pelas nuvens de poluição.

Mas as transformações na paisagem urbana de São Paulo não pararam por aí e a visão bucólica de uma abastada capital européia aos poucos foi dando lugar ao caos em que atualmente vivemos, com o advento dos automóveis e os inerentes congestionamentos, cujo primeiro registro de que se tem notícia data de 1911, por ocasião da inauguração do Teatro Municipal: 140 automóveis e 150 carruagens se emaranharam nos arredores do Teatro, fazendo com que muitos chegassem com notável atraso ao espetáculo inaugural!

O surgimento do automóvel impulsionou a mudança no traçado de algumas ruas, o alinhamento de quarteirões e sua conseqüente reconstrução, mas foi o concreto armado que transformou essa cidade num pulular de torres de Babel, ensandecidas para atingir o céu, das quais uma das primeiras foi o simpático Edifício Sampaio Moreira, uma jóia da arquitetura Luis XVI e que ainda pode ser visto pelos transeuntes da rua Líbero Badaró, embora com o lustro de seus tempos áureos completamente apagado.

Mas se foi com os dez andares do Sampaio Moreira que São Paulo começou seu crescimento vertical, foi com o Edifício Martinelli que a cidade dos jesuítas marcou seu ingresso no mundo das grandes metrópoles. Imponente no cruzamento da Avenida São João com a Rua Líbero Badaró e a Rua São Bento, ele foi o primeiro arranha-céu da América Latina. Do alto do seu terraço, localizado no 25° andar, era então possível admirar de maneira majestosa a cidade em frenética transformação: novas avenidas, construídas para dar vazão ao fluxo de veículos, inúmeras pontes que cruzavam os rios levando a bairros recém-criados, de modo a acomodar o extraordinário incremento populacional, a construção de residências elegantes em estilo neo-clássico na Santa Cecília, em Higienópolis ou na Avenida Paulista, edifícios comerciais, hotéis, mercados, teatros, escolas e tudo mais que uma cidade precisava ter para entrar para a história como uma das maiores do mundo.

A visão que se tinha, do topo do Martinelli, do vale do Anhangabaú, tão francês quanto a Avenida Champs Elisée de Paris, era de dar inveja a Gustave Eiffel, sobretudo porque, a partir da torre construída pelo engenheiro francês, via-se apenas uma bela cidade, mas não uma serra verdejante coroando o planalto sobre o qual São Paulo foi construída.

Fecho os olhos e consigo me imaginar caminhando por aquele terraço revestido por um singular ladrilho hidráulico, tão em moda na época, e, protegido por uma bela balaustrada, aproximo-me do beiral em direção à Serra do Mar e quase consigo ouvir o barulho da arrebentação das ondas e o sopro de ar gélido vindo do Oceano Atlântico.

Mas não é possível falar do Edifício Martinelli sem falar sobre seu idealizador, um entre tantos italianos de fibra que deixaram sua terra para fazer fortuna nas Américas. Giuseppe Martinelli, que pelos seus feitos assumiria mais tarde o título de comendador, nasceu no ano de 1870 na cidade de Lucca, onde viveu até completar 19 anos. Tinha o desejo de estudar arquitetura, mas suas condições financeiras não lhe permitiram concretizar tal sonho. Partiu então para o Brasil, país que, ontem, como hoje, atraía a atenção do mundo pelo seu insólito crescimento econômico, onde trabalhou como açougueiro e mascate, antes de montar uma importadora, que foi a origem de uma das maiores companhias de transporte marítimo da época. Em cerca de 30 anos de trabalho, sua companhia de navegação possuía uma frota de 22 navios e ele havia conseguido amealhar uma considerável fortuna. Dinheiro, porém, não lhe bastava. Queria deixar para a história um marco, um tributo a São Paulo por tudo aquilo que lhe havia proporcionado e, imbuído de seu espírito empreendedor, decidiu construir no ponto mais nobre da capital paulista o que foi, por diversos anos, o maior edifício da América Latina.

O Edifício Martinelli foi inicialmente projetado para ter 12 andares, mas, impulsionado pelo clamor da população e pelo ego de seu proprietário, acabou, depois de muitas controvérsias e discussões com as autoridades competentes, atingindo 25 andares. No entanto, o comendador queria mais. Ele desejava um edifício com 30 andares e para tanto, para provar ao mundo que sua obra era segura, construiu no terraço do edifício, que chamava a atenção não só pela altura, mas também pela largura, uma vila italiana de 5 andares, onde morou por algum tempo, até ter que vender sua obra para o Governo Italiano, em 1934, de modo a se recuperar das dificuldades financeiras que então enfrentava.

Mais de 600 operários e 90 artífices italianos e espanhóis trabalharam na construção do Martinelli que, para ser erguido, usou cimento importado da Noruega e Suécia pela importadora do comendador. Todo o material de acabamento (lustres, mármores, espelhos, vidros, estuques, elevadores, louças, portas, ferragens e papéis de parede) também foi importado, já que entre 1924 e 1929, período em que o gigante se ergueu, o Brasil ainda não produzia os materiais necessários para dar vida a essa suntuosa obra que teve origem no projeto de um arquiteto húngaro, mas que ao longo das adaptações que a levaram ao céu, teve o comando nas mãos do próprio Comendador Martinelli.

O prédio era um luxo só: granito vermelho no embasamento, falsa mansarda de ardósia no coroamento e corpo central revestido por uma massa rósea composta por vidro moído, cristais de rocha e mica, que o faziam brilhar durante a noite. Tudo isso para fazer com que seus nobres inquilinos, como jornais, clubes (entre eles o Palestra Itália), restaurantes, um hotel, um cinema e a famosa escola de dança do Professor Patrizi, sentissem-se no melhor dos ambientes.

Quem passa pelo Martinelli hoje tem dificuldade em identificá-lo com o Empire State da América do Sul, um lugar por onde passaram autoridades das mais renomadas em nível internacional, como o Prêmio Nobel e inventor do rádio Gugliemo Marconi. Também é difícil imaginar que foi ao seu redor que o Dirigível Graf Zeppelin deu uma volta ao passar por São Paulo, fazendo-o definitivamente entrar para a história, bem como pode ser difícil acreditar que em suas enormes fachadas foram afixados os primeiros out-doores do país (fazendo propaganda de produtos importados pelo comendador, é claro!).

Com a guerra, e a Itália em posição divergente do Brasil, o Martinelli, então de propriedade do Governo Italiano, foi desapropriado em 1943 pelo Governo Brasileiro e daí para frente entrou iniciou um processo de decadência interrompido somente em 1979, quando a prefeitura de São Paulo resolveu adquiri-lo, restaurá-lo e lá instalar alguns de seus escritórios. Nesse meio tempo e com o início da produção de aço no Brasil, matéria-prima necessária para a fabricação do concreto armado, os arranha-céus multiplicaram-se e o Martinelli acabou se tornando vítima da moda por ele mesmo criada, tendo, em 1947, perdido o título de edifício mais alto o Brasil para o Altino Arantes, construído a apenas alguns passos dele.

Hoje em dia, de seu terraço já não é mais possível admirar a bela paisagem do vale do Anhangabaú, adornado pelos pavilhões gêmeos do Conde Prates, os palacetes de Santa Cecília, ou a Serra do Mar. Vêem-se, ao contrário, os telhados de prédios menores e paredões de vidro e concreto construídos por toda parte como que a lhe gritar que sua época já passou. Os transeuntes da região também já não são mais ricas senhoras a caminho das compras na formosa Rua Direita, ou políticos e executivos apressados para o trabalho.

Os tempos são outros, assim como para outro terraço foi voltada a atenção dos paulistanos, desejosos de ver a sua cidade do alto, sem que outras construções lhes interrompessem o horizonte. E quis a história que novamente italianos estivessem envolvidos na construção desse novo ícone. Trata-se do Edifício Itália, localizado na esquina das Avenidas São Luis e São João. Ele não é o mais alto do país, posição ocupada pelo Mirante do Vale, aquele mesmo que empresta sua fachada para a telenovela “Tempos Modernos”. Entretanto, com seus 165 metros de altura e por estar construído numa zona mais elevada do que seu concorrente, faz com que seu terraço se eleve acima de todas as construções da paulicéia desvairada.

A idealização do edifício ficou a cargo da colônia italiana em São Paulo, por meio do Círculo Italiano, cuja sede se localizava no terreno onde foi construído o edifício de 46 andares, 52 mil metros quadrados de área construída, 4 mil janelas e 6 mil metros quadrados de vidros.

A obra tinha que ser imponente, de forma a representar a ascensão social e econômica dos italianos em terras paulistanas, após um difícil início, muito semelhante ao de todos os imigrantes, e que culminou com a transformação desta cidade, deste estado e deste país numa terra não só de promessas, mas de realizações.

Segundo noticia da época, o surgimento do Itália fez com que o perfil urbano de São Paulo fosse alterado de maneira marcante. É como se ele resgatasse para os italianos o passado de glórias do Martinelli, um resgate que até hoje não foi suplantado, já que o Edifício Itália continua a oferecer, depois de 45 anos, a vista mais deslumbrante de uma cidade que não pára de crescer.

E o panorama que se descortina do alto desse tributo deixado pela comunidade italiana a São Paulo aos cidadãos do mundo que queiram surpreender-se com as dimensões da maior cidade sul-americana tornou-se possível também graças à vontade de Evaristo Comolatti, outro italiano de fibra que fez sucesso no setor de peças para caminhões e que ao visitar o terraço do Edifício Itália resolveu construir ali um dos mais charmosos restaurantes italianos do país, permitindo, assim, que São Paulo fosse vista do alto da maneira mais agradável possível. Um espaço projetado por ninguém menos que Paulo Mendes da Rocha e Burle Marx, e que já foi visitado por Elisabeth II da Inglaterra, Indira Gandhi da Índia, Édson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, e inúmeras outras personalidades políticas e do show biz internacional.

Famosos e anônimos, paulistanos ou forasteiros, vidas que se entrecruzam, conforme disse Comolatti, para admirar a partir do Terraço Itália Restaurante o coração e o centro motor da atividade industrial desta borbulhenta terra.

Uma cidade orgânica, como bem colocado por Massimiliano Fuksas, grande arquiteto italiano que, em suas passagens por São Paulo, não consegue deixar de admirar a vida que exala. E um observador atento chega às mesmas conclusões ao observar São Paulo à noite, tomando uma boa taça de vinho, sozinho ou acompanhado, do alto do Terraço Itália: o fluxo de veículos lembra a circulação sanguínea, o acender a pagar de luzes no interior dos edifícios vizinhos faz lembrar um gigante ofegante, cujo sopro se traduz na suave brisa noturna. Quem serão essas pessoas, o que fazem, o que pensam, por quais problemas e vitórias passam?

Ah, São Paulo! A maior cidade japonesa fora do Japão, a maior cidade libanesa, fora do Líbano, a maior cidade portuguesa fora de Portugal e, naturalmente a maior cidade italiana fora da Itália. Metrópole com uma das maiores populações do mundo, com uma das maiores frotas de automóveis e com a maior frota de helicópteros. Local onde mais são vendidas Ferraris, única no mundo a possuir mais que uma loja Bulgari, Tiffany, Cartier... Mal sabia Dom Pedro, às margens do riacho Ipiranga, que aquele momento era apenas a primeiro de tantas grandezas que enobreceriam essa cidade, que não tem o Cristo no alto de um morro, mas que do alto de seus edifícios recebe a todos de braços abertos.