sábado, 5 de dezembro de 2020

Diário de viagem Paris, India, Nepal, Austrália e Estados Unidos - Dia 3


O dia começa com chuva e eu, meio preocupado, retardo ao máximo sair do hotel, esperando que ela dê trégua. Agora às 07:40, já não ouço mais a água escorrendo pela calha. Vou me preparar correndo e aguardar Wilma e Beto para irmos à casa de Monet.

Eles foram quase pontuais. Os cinco minutos de atraso me ajudaram a não fazer vexame. Assim que chegaram, fomos diretamente para a estação École Militaire do metrô e, de lá seguimos para A Estação de Trens de St. Lazare, de onde seguimos par Vernon e, de lá, para Giverny.

Muito bonita a estação de trens, com um mini shopping rico de lojas bens bacanas e que, no Brasil, são tidas como marcas de luxo. Na França, porém, são apenas boas marcas.

O trem da ida foi pontual e, em menos de 1 hora, que nem vi passar, já que conversei o tempo todo com Wilma (menos com o Beto), chegamos a Vernon, cidadezinha onde o tempo parou. Poucas lojas, uma feira livre, nenhum restaurante charmoso, dois hotéis fechados (baixa estação?), mas com uma igreja medieval e alguns edifícios em clássico estilo normando muito bonitos.

Achei um pouco cara a passagem de trem. Foram 14 euros para ir e mais 14 na volta. Chegando em Vernon, gastamos mais 5 euros para ir a Giverny e mais 5 para voltar de lá. De qualquer modo, valeu.

O tempo em Vernon, assim como em Giverny, que dista 5 minutos de ônibus, estava bem mais firme do que em Paris. Na verdade, o céu estava aberto e o sol nos sorriu quase todo o tempo, tornando mais vibrantes as cores das flores do Jardim de Monet.

Esse Monet se tratava bem e tratava bem seu jardim e casa. Lugares agradáveis e que, sem o barulho de carros a passar na estrada em frente ao portão principal, inexistentes à época de Monet, é extremamente agradável. 

Os jardins são replantados constantemente, é claro, para que permaneçam sempre floridos. Não importa. Caminhar por aquelas alamedas foi como fazer uma viagem no tempo, como se a qualquer momento Monet fosse aparecer agachado em algum arbusto, cortando-lhe as folhas secas, ou passeando nos barquinhos atracados num dos lagos da casa, muito bem retratados em dois de seus quadros, hoje pertencentes à coleção do Masp.

Dentro da casa, o destaque fica todo para o ateliê do pintor, com reproduções de cerca de 60 telas, acomodadas sobre as paredes tal como as deixava e tal como se pode ver em uma foto feita quando ele ainda lá habitava.

Queria ter comprado algum livro, mas desisti, pois o peso é grande e o preço também. Aliás, tudo na França custa muito, desde um café até qualquer coisa que se possa imaginar. Um par de tênis de corrida não sai por menos de 130 euros, mas alguns modelos custam até 180, valores bem acima dos praticados no Brasil, que já é considerado um país caro.

Uma coisa que gostei e que não sei se já havia visto são os pianos instalados em locais públicos, onde qualquer um pode se divertir e agradar os transeuntes com sua melodia. Meu primeiro encontro com um deles foi na estação de St Lazare e o segundo, dois dias depois, no Aeroporto, na espera do voo para Viena.

A permanência em Giverny foi rápida. Acredito não ter ficado ali mais do que 3 horas. Queria ter almoçado num dos restaurantinhos de lá, mas Wilma achou que eram um pouco turísticos, apesar de charmosos, e então seguimos de volta a Vernon, onde não encontramos nada que valesse à pena e acabamos comendo em qualquer lugar.

Apesar de pouco simpático o local do almoço, o que comemos não foi das piores iguarias. Pedimos um cassoulet e uma taça de vinhos. Não sabia bem o que era o cassoulet, mas acabei gostando. Trata-se de uma espécie de lasanha, onde fatias de batata cozida ocupam o lugar da massa. Entre uma camada e outra, pedaços de queijo. Também queijo por cima, devidamente gratinado. Ótima combinação!

O vinho não foi dos melhores, mas deu para o gasto, assim como o cafezinho para acordar e dar ânimo para uma caminhada ente as casas da vila, imaginando como seria e quanto custaria morar por lá. 

O trem de volta atrasou 27 minutos e acabamos tomando mais um café e conversando com um simpático casal que Wilma e Beto haviam conhecido no vôos de vinda do Brasil e que, por uma dessas surpresas da vida, eram pais do presidente do Facebook para a América Latina.

Já em Paris, compramos uma bobagenzinha numa loja de produtos de design da St Lazare e seguimos para o centro, por onde caminhamos por umas duas horas, até chegarmos em algum ponto perto da Place de la Concorde. Queríamos seguir a pé até nossas casas, mas o cansaço nos venceu e resolvemos pegar o metrô. No meio do caminho, passamos em frente à Ópera e paramos para que eles comssem algo numa interessante loja chamada Prêt-a-Manger. A comida, orgânica é feita na loja, quase pronta para ser consumida. Eu não provei, mas a decoração era fantástica. 

No hotel, meio cansado, comi algo comprado num Carrefour antes de terminar minha ronda. Nada romântico, mas muito prático e econômico.

Dormi sem grandes dificuldades, mesmo com o elevador grudado no quarto, pois estava extremamente cansado. Dormi bem.

sábado, 21 de novembro de 2020

A HISTÓRIA DE UM LIVRO QUE SE ASSEMELHA À HISTÓRIA DE CINDERELA

“Note como o ser humano frequentemente erra nos seus julgamentos”

Havia acabado de fazer a última revisão de seu livro “A ciência na cozinha e a arte de comer bem” quando, aproveitando a visita de Francesco Trevisan, conhecido professor de literatura, Pellegrino Artusi pediu ao caro amigo que desse uma olhada em sua obra e exprimisse sua opinião. Para sua surpresa, o trabalho de anos, recolhendo receitas populares, feitas com ingredientes locais, recebeu a seguinte avaliação: “Este livro não terá o menor sucesso”.

Desanimado, mas não de tudo, Artusi achou que seria oportuno obter o parecer de outras pessoas. Então, entrou em contato com uma importante editora de Florença, na esperança que, sendo os proprietários praticamente da família, tivessem maior condescendência com sua obra.

Convidou-os para uma refeição, de maneira que conhecessem sua obra na teoria e na prática. Todavia, novamente, recebeu um balde de água fria: “Se a obra tivesse sido compilada por Doney (famoso chef do final do século XIX), nesse caso e, somente nesse caso, o sucesso seria indiscutível”.

Artusi, que há época já contava com 71 anos, retrucou aos comensais: “Se esta obra tivesse sido escrita por Doney, provavelmente ninguém entenderia nada, como acontece com o livro O Rei dos Cozinheiros (Il Re dei Cuochi), enquanto que, com este manual, basta uma colher na mão e qualquer um é capaz de preparar grandes pratos”.

Para os editores, considerou depois o insistente senhor, não importa se um livro é bom ou ruim, se tem conteúdo, ou não. O importante é que leve um nome famoso na capa para vender bem!

Resolveu, então, sair do seu território e foi buscar a opinião de uma importante editora de Milão, da qual recebeu um curto e grasso: “Não nos ocupamos de livros de culinária”.

A este ponto, tomou a decisão de assumir o risco integralmente. Enquanto negociava valores com a gráfica, porém, fez uma última tentativa e perguntou ao dono se não se interessaria pela obra. O potencial parceiro, porém, propôs-lhe o pagamento de irrisórias 200 liras, além da cessão de todos os direitos.

Isso foi a gota e Artusi seguiu com a ideia de autopatrocinar uma primeira tiragem, mas de apenas 1.000 cópias.

Já com os filhotes em mãos, o escritor e empresário foi contatado por um amigo para que doasse para um evento beneficente 2 exemplares de um livro que, acreditava o amigo, ele tivesse. O problema é que não tinha os livros requeridos e, então, resolveu mandar 2 exemplares do seu manual de culinária. Antes não o tivesse feito, pois ficou sabendo que os ganhadores, ao invés de aproveitarem o conteúdo da obra, procuraram bancas de jornais interessadas em adquiri-la com o objetivo de fazer algum dinheiro.

As desventuras de Artusi não tinham chegado ao fim. Mandou uma cópia do livro a uma importante revista de Roma, da qual era associado, para que fizessem uma resenha, ajudando na divulgação. Todavia, a revista restringiu-se em citar o nome do livro entre os recentemente recebidos. E nem isso parecem ter feito de bom grado, pois o nome citado estava errado!

Foi então que, finalmente, apareceu uma boa alma para falar bem de sua obra. Trata-se do Professor Paolo Menegazzza, que gostou tanto do livro a ponto de desejar-lhe 100 edições! Artusi, porém, com os pés no chão, disse que já ficaria contente se sua obra chegasse à segunda edição. O professor, porém, para surpresa (desta vez positiva) de Artusi, citou a obra em duas de suas palestras.

Os ânimos começavam a voltar e, ainda que lentamente, unidade após unidade, o livro começava a encontrar interessados, até que a primeira edição se esgotou e, sempre com cautela, o autor mandou imprimir mais 1.000 cópias, que se esgotaram mais rapidamente.

Seguiu-se, então, a terceira edição, com 2.000 cópias, e depois a quarta e a quinta, cada uma com 3.000 cópias. A estas, seguiram-se, em intervalos relativamente breves, seis outras edições, cada uma de 4.000 cópias. Como o sucesso a este ponto não lhe parava de sorrir, vieram outras edições de 6.000, de 10.000 e de 15.000 cópias.

Em 1911, ano do falecimento de Pellegrino Artusi, a obra, que começou com 475 receitas, estava na 15º edição e contava com 790 receitas, entre sopas, caldos, entradas, molhos, massas, carnes, peixes, doces, licores e curiosidades.

É um dos três livros mais lidos na Itália, depois de As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, e Os Noivos, de Alessandro Manzoni. Foi traduzido para diversas línguas, como inglês, holandês, português, espanhol, alemão, francês e russo. Um verdadeiro best seller que, segundo uma pesquisa feita pela Readers’ Digest, em 1978, havia então atingido a marca de quase 2 milhões de cópias vendidas.

Ao morrer, não tendo filhos, Artusi deixou os direitos do livro a seus dois cozinheiros que, com a renda, viveram com tranquilidade para o resto de suas vidas.

E aí? Vai desistir no primeiro não?


🇮🇹🎩

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

20KM DE PARIS

Para falar sobre os 20Km de Paris e sobre como foi minha primeira prova fora do Brasil, tenho que retornar um pouco no tempo e explicar como a corrida de rua passou a fazer parte das minhas atividades quotidianas.

Até meus 26 anos, fazer qualquer atividade física era, para mim, quase tão improvável quanto encontrar um marciano no meio da rua. Até então, havia fugido com maestria de todas as aulas de educação física possíveis e imagináveis, do fundamental à faculdade. As desculpas eram variadas e, não raro, contavam com a ajuda da sorte, como numa ocasião em que, num exame médico, com o coração um pouco acelerado, fui diagnosticado com sopro cardíaco pelo médico que me examinou.

Não vou aqui tratar sobre as habilidades do médico que me examinou, mas seu diagnóstico foi muito conveniente para que camuflasse a preguiça que começou a arrefecer quando me dei conta que a força da gravidade começava a agir sobre mim, o que me fez procurar uma academia para começar a agir contra ela.
Com exame médico (nome) realizado e matrícula paga, comecei um plano de atividades físicas que, de pronto, me jogaram na cara todos os anos de sedentarismo acumulados. Para se ter uma ideia, eu me cansava com a esteira a 4,5Km/h!

Mas como para quem parte do zero (no meu caso, absoluto), os ganhos no começo são grandes, em pouco tempo adorava a rotina de acordar às cindo da manhã para ser o primeiro a chegar à academia.
Ganhos grandes de condicionamento, mas não o suficiente para evitar uma participação pífia numa maratona de revezamento Pão de Açúcar, na qual corri meros 5Km com a sensação de ter corrido os 42. Aff!
Tempo vai, tempo vem, depois de encarnar o ciclista indoor, com treinos (nada recomendados) em todos os dias da semana (dica n°1 do esportista: descanse pelo menos 1 vez por semana e encare treinos diferenciados para não fadigar seus músculos, que precisam de tempo para se refazerem), comecei a perceber que o mundo inteiro corria e não corria pouco. Meus irmãos já haviam feito maratonas, assim como o oncologista do meu pai, muitos de meus colegas de faculdade e uma massa crescente de colegas na nova academia que passava a frequentar.

Decretei que não ficaria de fora, contratei um personal e o pus para correr, ou melhor, a me preparar. O problema é que ele não era especialista em corridas e, já na primeira semana, descobri músculos, todos doloridos, que não sabia que existiam (outra dica, importante: procure sempre profissionais referenciados na área, pois se é para fazer trabalho de amador e se estourar, não precisa de treinador).
Imaginem que o ser me pôs para correr a 16Km/h durante 1 hora, de cara. Não deu três dias e já estava mancando. O problema é que a São Silvestre, primeira grande prova de rua e parte do meu treinamento, iria acontecer dali a poucas semanas. Além disso, eu já havia feito inscrição para a Maratona de São Paulo, que, àquela época, acontecia em abril. Resultado: baixei uma planilha de treinos do site da Maratona de Londres e encarei, sozinho, essa empreitada que, devo dizer, não teve um resultado tão ruim: terminei a Maratona de São Paulo em pouco mais de5 horas (talvez desse dizer pouco manos de 6 horas!) e vontade nenhuma de repetir a dose. Já enquanto corria a prova, não conseguia pensar em outra coisa além do que me havia colocado ali, sobretudo a partir do quilômetro 30, quando a perna esquerda e a direita resolvem ir uma para cada lado.

E minha história de corredor terminaria por aí se não percebesse que correr era uma boa maneira de manter proximidade com a boa forma e o máximo de distância da gordura generalizada. Foi aí que entrei para um grupo de corridas na academia, que acabou me levando à meia maratona do Rio de Janeiro e a muitas outras meias maratonas ao longo de 2013. Sim, pois havia decretado que as meias tinham a distância ideal para a mente e segura para o corpo.

Eis que, porém, perdi o prazo de inscrição para o que seria minha segunda meia maratona no Rio e, para não ficar de fora, resolvi fazer inscrição para a maratona. Afinal, eram apenas 21Km a mais (nada de mais, se não fosse aquela subida da Niemeyer que parece não acabar nunca!).

Dessa vez, porém, contratei um treinador de corridas e fiz todos (ou quase) treinos de esteira e de rua (na USP), deixando de vez o jeito “nas coxas” de correr. Tinha apenas 3 meses, mas fiz tudo à risca e, apensar de achar não estar pronto, pois os longões (na faixa dos 30K, pouco mais, pouco menos) me deixavam só o pó, segui para o Rio e terminei a prova em 4 horas e alguns (poucos!) minutos. Minha meta era terminar em até 4 horas, mas um certo cansaço no final , mesmo com todo o apoio de prova, diminuiu um pouco meu rendimento. O fato é que terminei bem, sem nenhuma dor, com um único efeito colateral que foi uma vontade louca vontade de fazer mais ... desde que não fosse outra maratona, não pelo menos até o ano que vem.

Foi aí que surgiram os 20Km de Paris. Quase uma meia maratona, com o físico preparado, num lugar diferente (maravilhoso), bem no começo das férias (que foram longas) e numa época do ano (12 de outubro) em que a Cidade Luz tem uma temperatura agradabilíssima (começa o dia com 12°C para chegar, no início da tarde, com algo em torno de 22°C).

Não pensei duas vezes e, quando uma amiga me falou dessa corrida, logo que recebi o link sobre a prova, já fiz a inscrição e comecei a preparar a viagem que, por si só, já é uma viagem.

Resolvi viajar com a Lufthansa, com paradinha em Frankfurt e aviões para lá de confortáveis. Cheguei ao Aeroporto de Paris Charles De Gaulle por volta das 15:00 da sexta, antevéspera da prova. Com alguma facilidade, peguei o trenzinho que liga o aeroporto ao centro da cidade e me dirigi ao hotel. Aliás, ainda bem que tinha umas modinhas comigo, pois a máquina de emissão automática de bilhetes para o trem só aceita moedas, ou cartão (que eu não queria usar). Nada de notas.

Depois de 9,75 euros e uma viagem com cerca de 50 minutos de duração, cheguei ao Hotel Prince, minha casa em Paris por 3 noites. Devo dizer que esse hotel não é lá grandes coisas. Um duas estrelas (cadentes), mas com roupa de cama e banheiro limpos. Além disso, fica em frente a uma estação do metrô (Escola Militar), a uma quadra do Village montado para a retirada do kit e a uns 4 quarteirões da largada.
Peguei o número de peito sem aquelas filas enormes de SP (cheguei até a pensar que quase não havia corredores inscritos) e, antes de me encontrar com Wilma e Beto, amigos que também foram correr e descansar uns dias na Europa, aproveitei para dar uma volta no Campo de Marte e pela Torre Eiffel. Tirei algumas fotos e, depois que me encontrei com eles, tirei outras, já com a noite caída e a torre iluminada. Bonito demais!

No dia seguinte, um passeio básico por Giverny, cidade de Monet e cama! Dormi bem e acordei cerca de 3 horas antes da largada, que aconteceu às 10:00. Tempo suficiente para a higiene pessoal, um bom café da manhã (mas sem exageros) e seguir caminhando até o local da largada, localizado mais ou menos embaixo da Torre Eiffel.

Grande surpresa ao chegar debaixo da Torre, porém, e ver a passagem para a corrida fechada. Deveria ter pegado a rua lateral à direita do Campo de Marte, mas resolvi seguir o fluxo de corredores e me dei mal. Sempre atrás da manada, segui para a esquerda, onde, aliás, haviam instalado os banheiros químicos e, junto a não menos do que umas 500 pessoas, fiquei aguardando que os colocados no local certo de largada passassem para que fosse liberada essa passagem. Como isso não aconteceu, sempre junto com os demais, feito uma Maria-vai-com-as-outras, fui para outro ponto pelo qual consegui acesso ... mas como demorou.
A corrida foi boa. O problema foi a quantidade de gente participando e as ruas afuniladas pelas quais nos fizeram passar logo no começo. Por conta disso, ao invés de largar às 10:00, conforme previsto, larguei 48 minutos depois. Mas consegui fazer um bom tempo. O tempo, aliás, colaborou e ficou firme até o final da prova. Caiu uma garoa muito fina e muito rapidamente apenas antes do (meu) início da prova.
Gostei do percurso, mas pensava que seria o contrário, ou seja, passando primeiro pelos arredores do Louvre, para depois seguir para ao Bois de Bologne e então retornar. Isso não fez muita diferença, a não ser pelo fato do percurso contrário não favorecer muito o fluxo de corredores, principalmente o comecinho, feito por uma rua com apenas duas pistas, enquanto que corridas com grande fluxo, no Brasil, possuem largada por ruas com pelo menos 4 pistas.

Tentando me desviar dos mais (muitos) lentos, subia e descia calçadas como uma lebre, até que dei um passo em falso, escorreguei numa guia umedecida pela garoa fina que havia caído e fui conferir a rigidez do tronco de uma árvore. Bati em cheio com o lado esquerdo do tórax e também ralei a orelha!
O incidente me fez perder tempo (apenas alguns segundos, mas sabem como é, de segundo em segundo se faz um minuto, que faz toda a diferença no final da prova). Entretanto, não me dei por derrotado. Levantei com a mesma velocidade que cai e segui correndo, mais rápido do que antes, com pace na casa dos 4 minutos ou menos, para poder compensar os segundos perdidos.

Com cuidado, corria olhando para o chão e também para os prédios, de uma arquitetura singular. Nada de edifícios gigantescos ocupando aquela região, mas apenas prédios de no máximo dez andares, dando harmonia ao conjunto e muita graça ao ambiente.

De repente, pouco tempo depois de iniciar a corrida, talvez lá pelo quilômetro 3, entrei no Bois de Bologne, que já conhecia de nome, das aulas de francês. Lindo o local, que pode ser comparado a um Ibirapuera para os parisienses, embora maior e mais arborizado.

Resolvi correr pelas calçadas, de terra e areia, de modo a amortecer a batida do pé contra o pavimento. Além do mais, essa trilha tinha menos corredores, o que me permitiu atingir meu objetivo de velocidade (média de 11,5Km/h ao longo de toda a prova), recuperando todo o tempo perdido com a caída e os desvios por entre os mais lentos.

Todo o caminho dentro do parque foi feito ao longo de uma alameda ladeada por plátanos, cujas folhas já amareladas começavam a cair, cobrindo o chão com uma tapete de tons entre o marrom e o cobre.
No final da alameda, praticamente toda em descida, num ponto em que tínhamos que retornar, um belo moinho, provavelmente construído há uns duzentos anos, quando o local talvez pertencesse a algum proprietário de terra.

Resolvi não parar para pegar água e nem os pedaços de laranja oferecidos a cada 5km, ou menos. Sempre por conta do grande número de corredores, eram pontos de passagem bastante tumultuados. Num deles, inclusive, acabei empurrando involuntariamente uma participante que cruzou meu caminho, quase andando, para pegar água.

Como não levei suplementos, garanti a reposição de energia por meio da ingestão de 4 cubos de açúcar que havia pego no café da manhã . Está errado, mas como esperava que no kit de prova tivesse uns dois saches de gel, não levei os meus e me dei mal. De qualquer modo, foram suficiente para completar a prova, depois de muitas subidas e descidas em 1hora e 48 minutos e 25 segundos. Um bom tempo.

A retirada do kit pós prova e da medalha também demandou tempo e paciência. Talvez tenha empregado cerca de 15 a 20 minutos, ou mais. Não sei bem, pois não levava relógio comigo, mas apenas o Garmin, que não estava programado para mostrar a hora. Mas tudo bem. Aguardar depois da prova não é um grande problema.

Gostei da medalha, no formato de um disco de vinil e em referência ao slogan da prova que conclamava os participantes a seguirem no ritmo da prova. Aliás, parece ser possível baixar (confesso que nunca tentei) as músicas que animaram a prova toda, a aproximadamente cada 1km, com algumas bandas de rock e muitas bandas de jazz. Fantástico!

Com medalha e kit nas mãos, segui para o hotel onde estava hospedado, caminhando pelas alamedas do Campo de Marte e, vez ou outra, virando de costas para uma última olhada na Torre Eifffel. Ôh obra bonita! Nunca subi no seu cume, pois tenho medo de altura. Não importa. Ali de baixo mesmo, aos seus pés, já é bastante agradável de se estar.


Tomei um banho, descansei um pouco e meio sem fome por já ter consumido todo o kit de prova, segui adiante, rumo às férias apenas iniciadas e já pensando em que outra prova de rua, maratona, com certeza, para fazer em 2015. Alguma sugestão?

domingo, 7 de setembro de 2014

O Reino dos Céus

Há quem imagine o Reino dos Céus como sendo um lugar entre as nuvens, com anjos voando para todos os lados e música clássica sendo tocada, enquanto pessoas felizes caminham em paisagens verdejantes.
Há outros, porém, que consideram o Reino dos Céus um lugar distante onde um dia habitaremos se nos desprendermos dos vícios e defeitos que nos ligam a este planeta de expiações e provas, seja lá o que isso signifique.
Há também os que acham que o Reino dos Céus ainda não existe e que será construído aqui na Terra mesmo. Por isso é necessário batalhar para que um dia se transforme no que os sábios chamam de mundo de regeneração, que eu não sei o que é, mas que deve ser um lugar para lá de bom.
Mas quem disse que aqui é ruim? Tudo tem dois lados e só depende de nós escolhermos o que é melhor ou pior.  
Se Deus fosse ruim teria feito os pássaros mudos, as estrelas apagadas, o sol sem calor, os cachorros arredios, as crianças tristonhas, as pessoas sem sentimentos, a natureza sem cor e as flores sem perfume.
Mas o mundo não é assim. Não é para quem tem alegria de viver. Para esses, o barulho dos pássaros se ajeitando à noite, na copa das árvores, é uma sinfonia de grande requinte.  Olham para o céu e ficam extasiado com o brilho das estrelas, que piscam para os apaixonados que lhes confiam os seus amores.
Ah e são esses mesmos que ousam amar e se encantam com a multiplicidade de cores, de texturas, de perfumes e de odores de que faz uso a natureza em formas de indomável beleza.
Se há felicidade e coisas boas por aqui, quero viver o Reino dos Céus hoje, pois sei que ele já existe. Basta ter olhos para ver, ouvidos para ouvir e vontade de viver, pois a vida é bela eme é consentida.
O Reino dos Céus está dentro de mim e, com essa certeza, procuro manter a mente tranquila, para olhar de frente os problemas e não enxergar apenas as dificuldades, mas também as oportunidades de crescer e ser feliz.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O JOIO E O TRIGO

Acreditava ter lido todas as parábolas de Jesus e eis que, convidado a fazer uma apresentação sobre a Parábola do Joio e do Trigo, dou-me conta que essa me havia escapado.

Diz ela que o reino dos céus é como um homem que planta boas sementes em seu campo que, na calada da noite, num momento de desatenção, tem-no ocupado por malfeitores que nele semeiam joio, uma erva daninha que sufoca o trigo e o enfraquece. Quando os servos desse homem se dão conta que entre o trigo há joio, perguntam-lhe se gostaria que ele fosse arrancado. O homem, porém, pede que o deixem crescer junto ao trigo até o momento da ceifa, quando o joio será amarrado em molhos para ser queimado e o trigo levado ao celeiro.

São tantas as lições que podem ser tiradas desse pequeno texto, cujo personagem principal é Jesus, o semeador, que deposita dentro de nós a boa semente antes mesmo de encarnarmos, auxiliado por nossos guias. Entretanto, invigilantes que somos, deixamos que o mal se instale dentro de nós, permitindo que nossos vícios e defeitos se alastrem pelos campos de nossas vidas.

Invigilantes e, até certo ponto, irresponsáveis, pois temos à disposição uma série de recursos para nos mantermos ligados aos bons espíritos, por meio de leituras edificantes e orações. Todavia, preferimos nos deixar levar pela doença do século: a falta de tempo. Temos tempo para comer, para nos divertir, para cuidar do corpo, para trabalhar e para dormir, mas não temos tempo para orar, pois sempre acordamos com pressa para uma pesada agenda de compromissos, que nos desviam do contato com Deus. Dela saímos tão cansados que, antes mesmo de dizermos Pai Nosso, o sono já nos levou.

Mas eis que chega a colheita, quando o joio deverá ser separado do trigo e amarrado, levado à fogueira. Nesse momento, o sofrimento se faz presente, não uma, mas várias vezes, fazendo-nos despertar e retomar o caminho da evolução, em sintonia com o mundo espiritual superior, fazendo com que o trigo plantado dentro de nós cresça para alimentar nossa alma e transformar nosso mundo interior no tão falado reino dos céus.

domingo, 6 de julho de 2014

MASP: MUITO MAIS DO QUE UM MUSEU

O dia estava perfeito para uma conversa com a arquitetura e as artes. O céu azul de brigadeiro contrastava com os verdes das árvores, que clamavam despudoradamente por atenção, num desfile assoberbado de folhagens de diferentes tonalidades e texturas. Também do céu soprava a brisa fresca da manhã, que mitigava o calor do sol já alto e que parecia esquecer-se que os primeiros dias de outono já haviam desabrochado.

Como era uma sexta-feira santa, o trânsito estava bem camarada e o percurso dos arrabaldes de São Paulo, às margens da Rodovia Raposo Tavares, onde moro, até o espigão da Avenida Paulista foi feito em pouco menos de 30 minutos.

Deixei o carro num estacionamento da região (meu destino não tem estacionamento próprio) e caminhei dois quarteirões até chegar ao número 1578, endereço de um antigo mirante, de onde, em dias com céu aberto, até os idos dos anos 60/70, era possível avistar todo o vale do Anhangabaú até a Serra da Cantareira.
Bons tempos esses em que Avenida Paulista era um local de veraneio, onde as famílias abastadas possuíam suas chácaras, nas quais podiam desfrutar do ar puro do campo e, ao mesmo tempo, estarem próximas do centro de uma das cidades que, poucos anos depois, tornar-se-ia uma das maiores do mundo, com todas as complicações que comporta ser gigante.

Enquanto caminhava, imaginava como se sentiria um viajante do tempo ao pousar na Paulista 100 anos depois da sua fundação, que seu deu, aliás, por iniciativa de Joaquim Eugênio de Lima, engenheiro e jornalista que planejou o loteamento da região e que, em testamento, doou para a cidade de São Paulo o terreno onde o prefeito Ademar de Barros mandou erguer a atual sede do Museu de Arte de São Paulo, meu destino daquela manhã.

Pássaros certamente não gorjeiam mais por lá, embora vez ou outra um sabiá-laranjeira esqueça-se que cidade grande não é lugar de passarinho cantar e, pousado numa ou outra árvore que desafiam os imponentes edifícios, solta seu canto em meio à multidão sempre apressada. Os mais sensíveis param para ouvir essa sinfonia da natureza, mas a maioria não consegue sequer presta atenção aos buzinaços, aos toc-tocs dos calçados e ao barulho dos motores dos automóveis, para não falar das incontáveis manifestações a favor dessa ou daquela causa.

O modo de se vestir também mudou um pouco. Bem, na verdade, mudou muito. Nem tanto para os homens que, basicamente, deixaram de usar seus elegantes chapéus. Já as mulheres, essas fizeram uma verdadeira revolução no guarda-roupa, encurtando vestidos, alongando decotes, eliminando acessórios e incluindo outros, às vezes com bom gosto, às vezes apenas com gosto.

Quantos pensamentos, tão diferentes e em tão pouco espaço de tempo!

De repente, minha caminhada chega ao fim e meu destino descortina-se bem à minha frente, um tanto quanto sem o lustro que um dia já teve, mas ainda com certa imponência, intrínseca ao seu passado e ao rico conteúdo que guarda e que já foi visto pelo povo e por majestades de diferentes origens. Cerca de 845 mil por ano. Muito? Bem, digamos que o potencial ainda não foi explorado na sua total plenitude.

O espelho d’água que banha os pés do edifício projetado por Lina Bo Bardi está esverdeado, anunciando que algo de errado paira por aqueles domínios. Observo com mais atenção e, além do musgo, um guarda-chuvas aberto e meio quebrado ocupa o local onde carpas coloridas um dia habitaram. Olho para cima e vejo que as colunas vermelhas, que sustentam e envolvem a imponente caixa de vidro estão meio sem vida, consumida pelo peso dos anos. Mas afinal de contas, o edifício nem é tão idoso assim. Foi inaugurado em 1968!

Caminho um pouco mais além e uma lufada de fumo (sim, aquele mesmo que é proibido, mas cujo livre consumo vem sendo bastante defendido ultimamente) me faz parar ao ponto de me entristecer, assim como a pequena multidão que, sem destino, protege-se das intempéries no grande vão de 74m e que já foi o maior do gênero no mundo. Entretanto, um inesperado som de clarinete começa a ecoar por aquele imenso vazio, desfazendo qualquer pensamento mais pesado, dando vida e alegria a quem ousasse escutá-lo. Eu ousei e, levado por sua graciosidade, fui me aproximando da bilheteria, onde outra pequena multidão aguardava para comprar seus ingressos. Mais um motivo de alegria, pois acreditava encontrar bem pouca gente por lá naquele primeiro dia de um longo feriado. Brasileiro gosta sim das ciências e das artes, concluí. Bem, brasileiros e estrangeiros, que dividiam de igual para igual os corredores do museu.

Falando em museu, essa palavra nunca me agradou. Lembra coisa velha, cheirando a mofo, com ar decadente, coisa que o MASP está longe de ser, apesar dos problemas pelos quais passa e que, vira e mexe, aparecem na mídia. Eu prefiro galeria, termo mais cool, como diriam os amigos anglo-saxônicos, que remete espaço vivo, com gente moderna e culta, que busca ver, mas também ser vista. E não é que foi essa a sensação que tive ao desembarcar, depois de um longo inverno, no segundo andar do edifício.

Mas como assim, em constante movimento, pode estar se perguntando você, que está lendo este artigo, neste momento? E me antecipando à sua provável dúvida, te digo que a coleção do MASP, reunida ao longo de várias décadas, a partir de 1947, está em constante movimento para poder expor seus mais de 8 mil itens catalogados, mas não todos de uma vez, o que seria impossível no atual imóvel que, entre seus vários ambientes, possui algo em torno de 11 mil metros quadrados. É obra “pra chuchu”! Pense bem, é como se a cada passo o visitante desse de cara com um Rembrandt, um Renoir, ou um Van Gogh, para citar apenas alguns dos grandes mestres da pintura universal que se alternam entre as salas do primeiro e do segundo andar, além das várias salas do sobsolo, que compreendem a chamada reserva técnica, uma caixa-forte que repousa a alguns metros abaixo da Avenida Paulista e onde a maior parte do acervo é guardada enquanto aguarda sua vez de ser vista, segundo critérios que têm mudado ao longo dos anos, conforme a proposta do curador-chefe em atividade.

Quando inaugurado o espaço da Avenida Paulista, em cerimônia que contou com a ilustre presença de Elisabete II, Rainha da Inglaterra, Lina Bo Bardi propôs que o acervo fosse exposto num salão sem paredes, no qual o visitante pudesse ver todas as peças de uma vez só, sem barreiras. Para tanto, as obras eram içadas do chão por cabos de aço e protegidas entre placas de vidro sustentadas por colunas de concreto. A ordem era ditada pelo período da obra e sua origem geográfica. Gostava desse conceito, abandonado no final dos anos 1990, quando as tradicionais paredes divisórias passaram a dar o tom de ordem ao local.

Com as paredes, veio o conceito de reunir as peças por tema e o deste momento reside no detalhe, conforme assevera o seguinte texto colocado bem no ingresso da exposição: “Durante longo período, a arte foi um tributo ao detalhe, indício forte do valor de um artista. Uma flor, um relógio sobre uma mesa, um sorriso, constituíam a base narrativa. Foi então que o detalhe começou a dissolver-se, até sair de cena”.
O detalhe desse texto, que abre a exposição “O Triunfo do Detalhe e depois, o nada” parece compor com maestria esse nada. Despercebido pelas pessoas que por ali passavam, embora bem na abertura da exposição, fazia companhia ao busto de Deus Pai, do Italiano Girolamo Santa Croce, que preenchia outro vazio, o do alto da escadaria que une o primeiro e o segundo andares do edifício. Separado do paredão que marca o inicio da exposição por outra parede, sendo essa de vidro, o belo busto de mármore de Carrara possui mais de 500 anos e retrata um Deus com ar meio triste, cabisbaixo, olhando em direção a sua criação, do alto das nuvens sobre as quais repousa. Parece saber-se esquecido.

Mas não se pode falar em detalhes sem se deter no detalhe do próprio edifício, exemplo da arquitetura brutalista, espécie de movimento desenvolvido por arquitetos modernistas por volta dos anos 1950 e 1960 e cujo conceito reside em não esconder os elementos estruturais, o que se conseguia, por exemplo, deixando o concreto armado à mostra, ou destacando os perfis metálicos de vigas e pilares. Foi concebido pela arquiteta Lina Bo Bardi, esposa do jornalista e crítico de arte Pietro Maria Bardi que, ao vir ao Brasil como curador de uma exposição de obras italianas, foi convidado pelo rei das comunicações de então, Assis Chateaubriand, ou simplesmente Chatô, a criar no Brasil um museu de artes antigas e modernas. Aceitou ajudar a criar um museu de artes, sem distinção entre antigo e moderno, à frente do qual ficaria por apenas um ano. Acabou ficando por quase cinco décadas.

Enquanto Bardi buscava obras de valor em países recém-saídos de duas grandes guerras, com tudo a ser refeito e dinheiro nenhum para pagar as contas, colocando no mercado grande quantidade de obras a preços baixos, Chateaubriand corria atrás de fundos para a aquisição dessas obras, coadjuvado por seu fiel escudeiro e diretor de finanças de seu grupo de comunicação, Edmundo Monteiro, que propunha à florescente burguesia industrial a troca de espaço publicitário por polpudas somas de dinheiro necessárias para dar vida ao MASP.

Nesse ínterim, Lina encontrava no Brasil um país livre das amarras do passado, onde podia criar livremente, segundo o padrão modernista de então, de difícil aceitação na Europa e que já fervilhava nas mentes de nada menos do que Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Cândido Portinari e Burle Marx, entre outros nomes que teve o prazer de frequentar.

Inspirada pelo país onde escolheu viver e pelas amizades que por aqui conseguiu fazer, Lina criou um edifício que se destaca na paisagem e que se tornou cartão postal de São Paulo. Por desejo do doador do terreno à prefeitura, não podia construir no local obra nenhuma que interferisse na amplidão do panorama (mal sabia ele que esse panorama seria destruído pela ocupação desordenada da cidade, ao longo da Avenida 9 de Julho), o que demandava a construção de um edifício subterrâneo, ou um suspenso. Entre uma e outra, Lina escolheu as duas!

Nos dois andares que se erguem sobre quatro pilares, projetou espaços onde expor a coleção do museu (galeria!) e mostras temporárias. No subsolo, construiu auditórios, mais salas de exposições temporárias (eu me lembro de uma memorável sobre Picasso e outra sobre Dali, com filas homéricas para entrar e ver cada obra), uma livraria (já viram museu sem uma livraria?) e um restaurante.

Falando em restaurante, aliás, que saudades da época em que o espaço se chamava Degas, em homenagem ao francês que se eternizou ao retratar, em telas e bronzes, bailarinas nas mais diversas posições. Comia-se muito bem (hoje também, mas sem o glamour de então) ao som de um agradável quarteto de cordas. Coisa chique ao alcance de todos os bolsos!

Mas Edgar Degas, nesse vaivém de detalhes que compõem um acervo montado ao longo de décadas não marcou seu nome apenas no espaço gastronômico do museu. Quem acha isso, não sabe que, além do MASP, somente o Museu D’Orsay, de Paris, e o Metropolitan, de Nova York, possuem a coleção completa de73 bronzes do artista. Uma das peças, aliás, faz parte da atual exposição. E que peça! Trata-se de uma bailarina, com os cabelos trançados, os braços para trás, a cabeça altiva e um dos pés prontos para girar e fazer seu vestido de tecidos leves rodar, dando indescritível graça ao movimento.

E como falar de bronzes sem citar o exemplar A Eterna Primavera, de August Rodin, que compõe a coleção do MASP. Olho para os dois amantes, Cupido e Psiquê, beijando-se calorosamente, como se nada mais no mundo importasse, e fico imaginando como a mão humana consegue reproduzir os detalhes daqueles corpos contorcidos com tamanha perfeição. Parece que, nessa ocasião, Rodin brincava de ser Deus, ou este brincava com os homens através de Rodin, procurando despertar-lhes a pureza de um sentimento, imortalizando-o num material tão frio.

E falando em Deus, volto minhas memórias daquele dia para o segundo andar do acervo, passo novamente pela estátua de Girolamo Santa Croce e sigo o percurso sugerido por um dos guardas, sentado num banquinho, sem se acreditar ser parte daqueles detalhes. Acato sua sugestão e começo minha exploração por uma recém-restaurada tela de Vitor Meirelles. Passaria batido por essa, se não estivesse gravada na minha mente, como se a tivesse vendo pela primeira vez, ilustrando uma das páginas de uma coleção da Editora Abril, intitulada Grandes Personagens da História do Brasil. Bem, a personagem da tela, embora tenha cedido seu nome a um importante bairro de São Paulo, não é das mais conhecidas. Nem por isso, porém, a cena retratada por Meirelles, no final dos anos 1800, deixa de representar com maestria os primeiros anos do Brasil, pós-descobrimento. Bem, a personagem é Moema, irmã da índia Paraguaçu, trazida pelas águas nas quais se havia atirado, num acesso de loucura, atrás do navio que levava Paraguaçu e seu marido, Caramuru, grande amor de Moema, para a distante Europa. Na tela, não parece morta, mas apenas adormecida sobre as areias aquecidas pelo sol de um final de tarde e acariciadas pela volúpia do mar.

Deixo Moema em seu sono profundo, que chegou a incomodar a crítica da época (afinal de contas, criticar é mais fácil do que fazer), para continuar meu mergulho nos detalhes. Fico impressionado com o tom de azul, muito intenso das paredes. Cumprem muito bem seu papel de destacar cada tela exposta, começando por um longo desfile de representantes da escola flamenga. É incrível que como, do alto de seus 400 anos, não parecem ser obervados. Ao contrário, parecem observar, sorrir, cumprimentar-nos. Acho até que gostam desse encontro, do diálogo de olhares travado entre eles e os visitantes, nos quais despertam diferentes emoções.

Caminho um pouco mais e me vejo diante da severa figura do Arquiduque Alberto VII, da Áustria, retratado por Rubens em 1615. Suas roupas negras, decoradas com detalhes dourados destacam-se no fundo vermelho. Ao lado, o Conde-Duque de Olivares, segundo o mestre Velázquez. Passa a ideia de um homem tímido, meio gordo e com aspecto avarento, ao contrário do seu vizinho da direita, com cabeça altiva, cabelos grisalhos e espada em punho.

Do outro lado, observando uma terracota chinesa disposta no meio da sala, o Cardeal Cristoforo Madruzzo, numa obra de do italiano Tiziano que representa a efemeridade de tudo (juventude, poder, posses) num relógio acomodado numa mesa ao lado do representante da igreja.

Quando passo à obra seguinte, não é a tela em si, reprodução de uma obra de Paolo Veronese, que me surpreende, mas o comentário do jovem observador. Ele nota uma pele de leão sobre o personagem retratado e corre dizer à mãe que se trata de Hércules. Ela não acredita, mas ele insiste e a faz ler a inscrição ao lado do quadro, comprovando o que havia dito e ganhando o elogio de entendedor de artes. O que prova que basta o ambiente confabular a favor que a criança aprende boas coisas.

Lendo as inscrições ao lado das peças expostas, noto que Ricardo Jafet , advogado, banqueiro e industrial brasileiro, foi um dos grandes doadores desse templo de devoção às artes. Ao lado dele, os Crespi (aqueles mesmos que ergueram o que é hoje o Museu da Casa Brasileira), os Matarazzo (cujo patriarca, Francisco, dispensa apresentações), os Penteado, os Pignatari e tantos outros, imigrantes e nascidos nesta terra, que fizeram fortuna, mas que souberam devolver um pouco do que ganharam ou receberam deste país em obras como essa, que ficaram como prova da pujança desse país e desse estado, sedentos de crescimento, embora às vezes titubeantes em seus ideais.

Retornando à busca por detalhes, eis que ele surge, um tanto quanto acanhado, meio distraído, como se estivesse se observando num espelho, o retrato do jovem Rembrandt, realizado pelo próprio, quando a barba ainda mal lhe cobria o rosto. A roupa pesada indica o clima frio na época em que foi pintado, assim como a boina, que pousa sobre a cabeça do jovem pintor. O cenho meio franzido faz pensar que o resultado não agradava muito ao artista, ou talvez que estivesse bem concentrado, para não perder nenhum detalhe que seus olhos conseguissem captar. Com a boca fechada, é a luz de seu rosto quem fala. Mas fala para quem? Para quem o observa, é claro, mas também para as terracotas chinesas, que resolvo investigar, deixando para conversar com Van Dyck, vizinho de Rembrandt, numa outra ocasião.

Tão belos, tão ricos de detalhes, esses guerreiros chineses de terracota parecem chamar a atenção somente dos personagens das telas e de mim. Esquecidos no meio do salão, sem conseguir chamar a atenção de nenhum visitante, do alto de seus 2.600 anos, parecem invisíveis. Fantástica a expressão de seus olhos, severos, com as sobrancelhas erguidas. Os braços, saídos das bocas de dragões, que lhes tomam o lugar dos ombros, estão em posição de ataque. Mas golpear o que? Talvez o ar, talvez desejem apenas assustar.
Alguns passos mais adiante e um pequeno Corot me chama atenção. Trata-se de um maço de flores, já meio murcho, mas nem por isso menos intrigante, acomodado num copo. Um preanuncio, talvez, para outro Corot, bem maior e mais impactante, que retrata uma jovem cigana, com a cabeça meio caída de lado, esquecida de si mesma e tocando um bandolim, que os ouvidos mais imaginativos até conseguem escutar. Em que será que pensava? Certamente não nos Goyas que lhe sucediam, como o retrato do jovem cardeal (mais um!), com o loiro de seus cabelos destacados pelo vermelho cardinalício de seus trajes.

Mas é o retrato da jovem Duquesa de Parma que me tira do transe e me faz rir um pouco. Retratada como uma figura mitológica, deitada sobre uma espreguiçadeira, com o globo terrestre sobre um dos cotovelos e um cesto cheio de frutas e moedas no outro, parecia aguardar ansiosamente pelo término do trabalho do pintor para atacar as frutas e gastar todas as moedas, de ouro, é claro, provavelmente com um novo vestido, talvez mais largo, para acomodar melhor toda aquela protuberância.

Se a Duquesa de Parma me fez rir, a jovem Angélica Acorrentada, de Ingres, me faz sentir todo seu sofrimento, estampado na pele alva que ilumina a tela, na cabeça caída para trás e nos olhos melancólicos. E o Jovem Gabriel Godefroy, então, de tão real, parece saltar da tela, assim como o peão com o qual brinca atentamente, sobre sua mesa de estudos. “A educação faz tudo”, é o título da obra exposta de Jean-Honoré Fragonard, membro da secular família produtora de perfumes e que cujo nome está nos 4 cantos da pequena cidade de Gras. Faltou dizer que a educação faz tudo se for feito algo por ela, que não pode ser um mero detalhe no meio da sociedade.

As paredes mudam de cor e percebo, no tom das telas, que o detalhe começa a se desfazer. O Impressionismo começa a se fazer presente, com magníficos exemplares de Joseph Turner e Monet. Mas nesse começo de impressionismo, segundo o qual não é o detalhe que conta, mas a impressão geral, são os jardins da Catedral de Salisbury que me chamam a atenção, fazendo-me mergulhar na tela, caminhar por entre aquelas árvores e adentrar naquele templo de orações. Tudo isso numa fração de segundos, que mais parecem uma eternidade.

Mais uma mudança de cor nas paredes e percebo um Matisse, que grita para ser visto. Uma jovem atende a seu pedido, enquanto os observo, pacificado pela cena e esquecido do tempo, que parece não passar naquele caminho gramado, salpicado de flores vermelhas, que terminam num vilarejo, lá no fundo, bem na linha do horizonte. Mas será que termina?

De repente, as paredes tornam-se brancas. É uma indicação de que os detalhes não são mais importantes. O abstracionismo passa a roubar a cena e, no meio dela, destaca-se o retrato de um homem, feito por Picasso, com as feições desestruturadas, irregulares. Parece triste, ou quem sabe apenas compenetrado. Logo mais ali, um Ianelli dá cor à parede, mas sem qualquer forma. É o detalhe que chega ao fim. O nada.

E pensando que a exposição havia chegado ao fim, corri para o primeiro andar. Não permaneci muito tempo por lá. Apenas alguns minutos para observar rapidamente as gravuras de artistas mais contemporâneos, como Claudio Tozzi, Tomie Ohtake e Aldemir Martins, meu preferido entre eles. Além de mim, um ou outro guarda e o silêncio, rompido pelo meu caminhar e minha respiração.

De repente, lembrei que havia pulado uma pequena seção do segundo andar e voltei para lá. Já meio cansado, não me detenho muito tempo em cada tela, mas não posso deixar de observar outro Picasso. Desta vez, o retrato de Suzanne Bloch, aquele mesmo que foi roubado há alguns anos atrás, juntamente com o Lavrador de Café, de Cândido Portinari. Felizmente, ambos foram recuperados e retornaram para casa sem qualquer arranhão.

Meio titubeante se prosseguir, ou retornar em outro dia, resolvi prosseguir e apreciar os 6 Modigliani que fazem parte da coleção, entre os quais o famoso retrato de Leopold Zborowski. Que figura marcante, com o rosto alongado e os olhos amendoados, como num máscara africana, fonte de inspiração do pintor, italiano, mas pertencente à escola francesa.

Mas a grandeza da coleção do MASP ainda está longe de terminar. Que dedo bom para as artes tinha esse Pietro Maria Bardi. Que força de vontade tinha aquele paraibana arretado das comunicações. Que patrimônio deixado para os brasileiros, que viajam para o exterior, lotam os museus de Paris, Londres e Nova York e mal sabem que bem ali, na Avenida Paulista, a mais paulista das avenidas, estão guardadas obras de impor respeito. A lista é tão longa e os detalhes são tão numerosos que vale à pena terminar apenas dizendo que, além dos detalhes aqui descritos, outros tantos podem ser observados em simplesmente nove Toulouse-Lautrec (fantástico o retrato de Monsieur Pascal), cinco Van Gogh (com especial destaque para o Passeio no Crepúsculo, que retrata tão bem os típicos ciprestes que Van Gogh trazia tão bem para suas telas com suas forte pinceladas), onze Renoir (como não se emocionar diante de Rosa e Azul?), além de obras de Cézanne, Manet, Utrillo, El Greco e, para terminar, um Botticelli.


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